quarta-feira, 11 de setembro de 2013

A esperança (em) Ivan Cavaleiro


Ivan Cavaleiro assume-me como uma das principais figuras da nova geração de jogadores dos sub-21 portugueses. Por aqui vimos o Ivan jogar pela primeira vez quando tinha 13 anos ao serviço do Benfica. O seu futebol mudou muito, passou por uma dispensa e repescagem, mas mantém a génese do poderio físico e da entrega em cada lance que disputa. Parte para a sua segunda época como Senior e a experiência adquirida na temporada passada ao serviço do Benfica B foi muito positiva para a sua afirmação. Mas vamos explorar a nossa opinião.

A irregularidade exibicional, fruto da idade e de estar ainda longe da fase de rendimento enquanto jogador, faz com que as opiniões que surgem sobre ele sejam de enorme discrepância. É também por isso que o próprio Rui Jorge o vem testando como Avançado, procurando também perceber o que ele tem para dar nas várias formas possíveis de jogar. 

Numa altura em que se vai falando na falta do talento, o Ivan tem de ser um deles. Não o é pelos enormes recursos técnicos (que não tem), ou pela genialidade que (não) apresenta. É um jogador que vai moldando o talento. Velocidade, explosão, capacidade física, irreverência... Ivan quanto a mim não será, a curto prazo, jogador para equipa grande. Não tem ainda tomada de decisão de nível aceitável para outras exigências. Falta-lhe alguma qualidade a jogar com menos espaço e em ataque posicional declarado. Contudo, assume-me para já como um jogador muito forte em transição, com espaço nas costas da defesa, em situações que propiciem situações de 1x1 quer pelo corredor lateral ou pelo central.

Numa altura em que se reclama a falta de jogadores da formação no plantel do Benfica, o Ivan Cavaleiro assume-se como um dos possíveis futuros seleccionáveis, embora não acredite que possa atingir o nível de titular do Benfica, num futuro próximo. É um jogador para explorar e que pode continuar a crescer porque tem uma margem ainda, aparentemente, grande à sua frente. Contudo, tem de ter outro tipo de exigências e estar inserido noutros níveis competitivos. Este ano, mais uma época na 2ª Liga, pode ser atrasar o crescimento de um jogador que precisa claramente de ir subindo degraus até se ver o que pode alcançar.

Da nova geração dos sub-21, já aqui falei no Lucas João ainda não fazia parte dos seleccionáveis. Tomem atenção a este jogador que tem condições para crescer muito dentro de Portugal. E jogadores de equipa grande, figuras, terão de ser Rafa Silva, João Mário e Tiago Silva. Portugal e o futebol nacional agradecem.

Vamos continuar de olho neles...

Alguns dos últimos jogadores, alguns em campeonatos de menor dimensão, espalhados pelo globo, foram alvo dos olheiros espalhados pelos tubarões da Europa. Acreditamos que não tivemos nada a ver com isso, apesar do esforço.

Juan Quintero, do Pescara para o FC Porto.
Florian Thauvin, do Bastia para o Marselha.
Jesus Corona, do Monterrey para o Twente.
Diego Laxalt, do Defensor para o Bolonha (via Inter).
Ante Rebic, do HNK Split para a Fiorentina.


terça-feira, 10 de setembro de 2013

Prospecção: Vinicius Araujo



Está a aparecer na primeira equipa do Cruzeiro um dos produtos da sua formação que mais promete para os adeptos do actual líder do campeonato brasileiro. Vinicius Araujo tem apenas 20 anos mas já se vai destacando na equipa. Jogador de área, é dotado fisicamente, imponente com bola, agressivo, parte para cima e tem faro muito apurado para o golo. Boa leitura dos lances, bom poder de movimentação e qualidade técnica nas suas acções. Tem um bom poder de salto e cabeceia bem. Leva 5 golos, jogando de forma intermitente, num grupo experiente e apostado em dar o título aos adeptos, mas tem condições para marcar o seu espaço e evidenciar-se ainda mais. Para seguir.

Nacionalidade: Brasil
Data de Nascimento: 22-02-1993 (20 anos)
Altura/Peso: 176 cm / 76 kg
Posição: Avançado
Clube: Cruzeiro

Época           Clube           Jogos           Golos
2013          Cruzeiro            19                 7

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

O talento puro e a sua lapidação


Portugal enfrenta uma crise nos dias que correm na formação em Portugal. Esta é uma realidade evidente aos olhos de quem observa o actual estado do futebol de formação no nosso país. A culpa é transversal à própria sociedade e aos clubes e aos elementos que acabam por a ele estar ligados nas mais diversas áreas. A enfatização dos modelos de treino e jogo, a obrigatoriedade de cumprir determinados pressupostos e objectivos, os perfis de jogador, o modelo de jogo transversal, são tudo questões que podem ser discutidas num futuro próximo mas que originam uma só coisa: a perda do talento.

Olhar para as equipas Sub-19, Sub-18 e Sub-17 do nosso futebol e procurar talentos é uma missão difícil e de pouco sucesso. Mas nos escalões inferiores, Portugal continua no topo. E fá-lo porque há uma necessidade clara de explorar o talento individual e de permitir situações complexas aos atletas. Ainda há alguma competitividade e percepção dos dirigentes para colocar os atletas em níveis de dificuldade adequados ao seu patamar qualitativo.

O Benfica tem nas suas fileiras um jogador a que se pode chamar o verdadeiro talento. Chama-se João Filipe e tem 14 anos. Desde sempre ao serviço do Benfica tem crescido de forma sustentada e teve o ano passado uma prova muito interessante: ainda de primeiro ano, era peça importante da equipa sub-15 (Escalão acima do seu) o que lhe garantiu níveis de complexidade superiores, fruto da diferença física que o obrigou a procurar outras ferramentas para obter sucesso.

Hoje é um prazer vê-lo jogar. Classe pura, elegância, cabeça levantada sempre com o olhar sobre o jogo, irreverência, requinte técnico, qualidade em todos os seus movimentos. É um craque na verdadeira acepção da palavra. Este ano, aparentemente, vai continuar no escalão que estava o ano passado. Será tudo fácil para ele, é certo. Fisicamente ainda não deu o pulo, relativamente aos outros atletas do seu escalão. Talvez nem fosse totalmente proveitoso voltar a subi-lo de escalão. Mas é uma hipótese que tem de ser considerada.

E para lapidar este tipo de talento, é preciso deixá-lo errar, tomar decisões, procurar ultrapassar limites, permitir-lhe alguma anarquia na tomada de decisão. É fruto do erro que a aprendizagem aparece. E o escalão de Iniciados do Benfica tem sido um sucesso ano após ano pelo trabalho realizado pelo seu treinador Luis Nascimento. É que os resultados competitivos aparecem, a equipa joga bem, e muito bem, mas os talentos expressam-se e divertem-se a jogar futebol.

No sentido inverso vem Mesaque Dju. Faz toda a diferença actualmente. Veloz, tecnicista... não há forma de o parar quando tem espaço nas costas da defesa ou parte em situações de 1x1. A questão é a forma fácil como efectua tudo o que lhe é pedido e a forma como resolve qualquer problema que lhe aparece. Certamente que será um ano de muito sucesso individual, mas tenho dúvidas que isto se converta numa evolução clara e que possa estar aqui um jogador de possível integração num lote de jogadores a ter em conta para o futebol profissional.

Noutra óptica, Jordan Van der Gaag faz lembrar Bernardo Silva. Pé esquerdo de grande qualidade, tomada de decisão sempre certa, irreverência, assume o jogo. A nível físico está ainda abaixo dos restantes, mas com tempo, e mesmo não tendo muitos minutos nos jogos mais difíceis, está aqui um jogador para seguir com atenção.

domingo, 8 de setembro de 2013

A ver os futuros "talentos"


Hoje fomos ver ao Restelo o jogo de Juniores entre o Belém e o Benfica. Vou ser rápido a dizer o que sinto em relação ao que vi. Desde 2006 que ano após ano vejo as equipas de Juniores do Benfica jogar e esta é provavelmente a equipa mais fraca de que me lembro. Jogadores sem qualidade, colectivo fraco, pouca inspiração, é mau de mais assistir a um Benfica claramente abaixo do normal e onde o nível perspectivável de jogadores para a primeira liga, de um plantel inteiro, são 3, no máximo 4.

Assisti ao jogo com o Oeiras e naturalmente a perspectiva não era a melhor. Hoje confirmou-se. O Benfica ao longo de todo o jogo, embora tenha ficado cedo em inferioridade numérica, fez possivelmente 2 remates à baliza e lances de perigo? Só com erros do Belenenses. Por falar nos azuis, uma geração longe de outras que batia o pé aos grandes, mas com um jogador de qualidade evidente. André Galamba, 18 anos, médio centro, joga de cabeça levantada pelo miolo, qualidade técnica, de passe a curta e média distância, boa tomada de decisão. Gostei.

Por falar em decisão. Romário Baldé tem contrato profissional com o Benfica. É uma das coqueluches. Pergunto porquê? Um jogador que toma quase sempre a decisão errada, não aproveita um lance de um contra um, não se sabe posicionar... Tudo bem, corre mais que os outros, mas a balança está mais equilibrada e nota-se as evidentes dificuldades técnicas que tem e de pensamento do jogo conforme ele se vai tornando mais complexo (subida de escalão, aumento da complexidade e do equilíbrio físico).

Do Benfica o claro destaque positivo é de Nuno Santos, jogador recrutado ao Rio Ave que tem um pé esquerdo muito interessante e que pode fazer uma carreira digna no principal escalão do nosso futebol. Joga sem receio, aborda sempre os adversários, parte para cima, forte em progressão...

Mas é curto e chega a ser triste perceber que o nível da formação em Portugal vai caindo ano após ano e este campeonato de Juniores vai ficar marcado pelo baixo nível dos seus intervenientes. Arrisco dizer que há titulares do Benfica e do Belenenses que tenho dúvidas que façam carreira numa 2ª B, sequer.

Não se pode ter expectativas de todos os anos ter gerações fortes, ao nível das melhores. Certo. Mas os responsáveis têm de perceber que há certos jogadores que nunca jogarão sequer numa 2ªB, e são titulares dos Juniores de um clube como o Benfica. Não pode. Têm de sair, não vale a pena o investimento, e dar-se espaço a Juvenis de qualidade que possam crescer, jogando em níveis mais exigentes e complexos e que possam fazer deles jogadores com mais argumentos para num futuro próximo jogarem numa liga profissional.

O Benfica não perdia competitivamente porque a balança do recrutamento é gigantesca a favor dos clubes grandes. O Benfica consegue sempre, mas sempre, os melhores, e nesse sentido tem obrigação de fazer muito mais. Os resultados que ficam não podem ser os desportivos (títulos) nem o número de convocáveis para as selecções. Têm de ser o número de jogadores aproveitados para as suas equipas profissionais. Esta tem de ser a meta.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Liga Record: A Vida do Futebol


Está prestes a começar mais uma edição da Liga Record, jogo patrocionado pelo Jornal Record e que conta com milhares de participantes. Como qualquer bom olheiro e apaixonado por futebol, o nosso blog quer juntar-se, uma vez mais, a esta iniciativa que para além da sorte de escolher o cavalo certo na hora decisiva, é essencialmente uma forma de acompanhar equipas/jogadores da nossa Liga e estar atento aos nossos talentos dentro de portas.

Sendo assim, e também contando com a expansão do blog, queremos organizar uma Liga Record interna do blog, a fim de se perceber o conhecimento dos visitantes do blog e criar uma competição saudável e divertida entre todos nós.

O objectivo, para apimentar a "disputa", é criar prémios para os 5 primeiros classificados (variável de acordo com os participantes na Liga). Sendo assim, a inscrição seria de 10 euros - por transferência bancária e envio do respectivo comprovativo por e-mail - (número ilimitado de equipas por participante) e os prémios seriam divididos da seguinte forma: 50% do valor total das inscrições para o 1º lugar; 25% para o 2º lugar; 15% para o 3º lugar; 5% para o 4º lugar; 5% para o 5º lugar;

Para participar na Liga Record necessita de comprar a revista que tem um custo de 3€ a fim de lhe ser dado o código para a inscrição global da Liga. Os prémios este ano são mais uma vez muito aliciantes.

Fico à espera da reacção dos participantes a este desafio na caixa de comentários.

Em breve mais novidades.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

O triângulo do centro de jogo: Versão sucesso

Quem leu o post anterior sobre a primeira parte do Benfica na Madeira percebeu que houve um conjunto de erros de entendimento do jogo da parte dos jogadores do Benfica. Uma questão de não cumprir princípios e de um momento de jogo (organização ofensiva) totalmente fora do contexto que o Benfica tem habituado quem os assiste. Muitas pessoas podem ter-se perguntado do porquê da necessidade de certos jogadores terem de cumprir determinados procedimentos ou posicionarem-se noutros espaços. Hoje, numa óptica semelhante, e em versão sucesso, analisamos o golo do Barcelona.

Sou adepto do futebol que Tata Martino. Já no Newell's tinha uma proposta de jogo muito interessante face à realidade que costuma ser possível ver na Argentina. Hoje vimos um Barcelona em alguns momentos de jogo procurar acelerar o seu ataque posicional como não fazia de forma regular. Mas centremos-nos no golo.


Fabregas é quem define o início do lance. Em poucos segundos a equipa acaba por fazer golo, mas tudo começa aqui. O centro de jogo está bem definido, com o triângulo evidente. Duas coberturas ofensivas ou apoios, e fora do centro de jogo, jogadores a garantir largura e possíveis movimentos de ruptura para o sucesso da circulação. Esta imagem em que o Atlético se posiciona com uma linha bem definida em termos defensivos não é muito diferente do que fez o Marítimo. A diferença está em quem ataca.


Xavi recebeu o passe. Fabregas prepara-se para dar nova dimensão ao centro de jogo da equipa porque o passe de Xavi vai para o lado direito onde um elemento garante a largura. O jogador que se encontra à direita da imagem é também importante, para impedir o encurtamento do espaço por parte do Atlético.


O lateral do Barcelona recebeu a bola. Há um espaço aberto neste lance porque o Atlético saiu com 2 jogadores ao portador. Esse espaço será fundamental no lance, mas será fundamental não pelo passe ter saído para lá, mas sim porque Fabregas (assinalado na imagem) percebeu que era ali que devia estar para garantir o centro de jogo com um triângulo e fixar ali os defesas, abrindo também a possibilidade da linha de passe. Xavi, inteligente como é, progride para receber e jogar de frente.


O passe entrou em Xavi, e Fabregas já está na zona decisiva de todo o processo. Decisiva porque o seu posicionamento abre duas hipóteses à decisão de Xavi. Ou faz passe de ruptura para Fabregas, ou lateraliza para o lateral. Quem não sabe e fica na dúvida é o defesa do Atlético. Essa dúvida faz com que se posicione num lugar intermédio e abra as duas hipóteses tentando ainda interceptar qualquer uma das hipóteses, obrigando Xavi à decisão de risco. No outro lado da imagem vemos a forma como Neymar (inteligente) vai percebendo onde pode intrometer-se no lance. É que o triângulo continua a ser realizado perto da bola, mas o seu garante são os movimentos exteriores a ele, também.


O lateral recebeu a bola. O defesa do Atlético tenta fechar a possibilidade de passe mais próxima mas toda a equipa está em basculação num sentido. Um passe longo, na zona morta, e para onde Neymar se prepara para atacar, pode ser fatal. E foi. O Barcelona percebeu em todos os momentos do jogo onde estava o ganho, e os jogadores foram complementando entre si os posicionamentos de forma a criarem dúvida no adversário mas garantirem sempre o sucesso ao seu portador da bola, o fundamental para a manutenção da posse e a progressão.

Veja tudo isto em velocidade real:

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Contrastes tácticos: Erros básicos

A primeira parte do Benfica no Funchal foi, provavelmente, a pior a que me lembro de ter assistido uma equipa de Jorge Jesus fazer sob o ponto de vista do ataque posicional. Um momento de jogo em que o treinador encarnado sempre habitou a fazer a diferença e onde as suas equipas eram claramente acima da média. Sobretudo em termos das dinâmicas criadas, fruto de posicionamentos certos e muito trabalhados. O que assistimos na Madeira foi uma equipa do Marítimo extremamente bem posicionada e concentrada, e um Benfica a pecar em momentos capitais, com erros típicos que já não se usam a este nível.


Matic tem bola e procura linhas para jogar. O Marítimo fecha de forma evidente qualquer entrada pelo corredor central, obrigando o Benfica a lateralizar e tentar entrar por fora. O espaço entre-linhas simplesmente foi abafado pelos verde-rubros mas Matic tem duas opções: passe de ruptura nos corredores laterais. Enzo Pérez, um dos mais esclarecidos, aponta-lhe o caminho. O sérvio faz isto.


Progressão (aceitável, para fixar um dos defesas) mas o posicionamento e movimentação que Djuricic fez retira-lhe uma das opções: má leitura do 10 do Benfica a posicionar-se num espaço que elimina uma das linhas de passe possíveis, mas que liberta a de Lima. Contudo, numa fracção de segundos, Matic já tinha tomado a decisão, difícil de alterar a meio da execução, e mais um passe errado. Repare-se ainda no posicionamento de Enzo Pérez. A culpa não é sua, claro. Neste momento tem de descentralizar a zona de pressão do Marítimo. Colocar-se fora do centro de jogo (triângulo então definido pelo Djuricic) e dar largura pelo seu corredor. Fica no meio. Facilita o Marítimo.


Imagem 3. Matic com bola e tem junto a si Gaitán, que veio pedir jogo. Amorim, simplesmente a olhar, quando podia procurar oferecer uma solução. Cortez sem sentido de ruptura, e Maxi, quando devia estar aberto, perto do colega, facilitando a tarefa de Sami que na imagem já está completamente dentro do corredor central a fechar uma linha de passe entre-linhas (para Djuricic). Erros atrás de erros.


Amorim com bola. Matic a 2 metros, linha de passe possível para Gaitán que dá largura mas vejam o posicionamento de Enzo Pérez. Mais uma vez, só pode ser do hábito. A largura e profundidade dada pelo corredor devia ser dele. Devia também largar aquele espaço, levar com ele o defesa, e permitir um apoio frontal de Djuricic ou Lima. 


Princípio básico do jogo. Matic com bola, Amorim perto. Uma vez mais. Já percebemos que este erro foi constante. Mas o triângulo de circulação para definir o centro de jogo onde está? O garante da progressão? O jogador que procura receber para jogar de frente? O apoio frontal? A pergunta fica explícita no ponto de interrogação. E Matic, claro, sem outra opção, tem de jogar para trás.


Djuricic, uma vez mais, mal posicionado, e o centro de jogo que mais uma vez não existiu. Matic não tem outra opção se não voltar a lateralizar o jogo. Mas pelo corredor central conto 4 jogadores do Marítimo prontos a bascular e o Benfica apenas com o portador da bola. Impossível.


Primeiro lance em que Djuricic aparece entre-linhas e consegue receber e rodar. O problema é que o posicionamento de Lima é o que vemos. Limita-se a olhar, e a sombra na imagem do lado direito é um jogador do Marítimo. Alguém adivinha? Djuricic lateralizou, o Marítimo basculou, e o Benfica não conseguiu penetrar uma vez mais.


Imagem que define tudo o que foi possível ver. Djuricic está com Enzo numa zona perigosa, abrem-se 2 possibilidades de fechar o centro de jogo, com o posicionamento de alguém, quer em ruptura, quer em apoio. As zonas definidas permitem-nos pensar o que estaria o resto da equipa à espera para oferecer uma opção. Os 2 jogadores do Benfica que aparece na imagem foram obrigados a tentar uma combinação directa contra 4 elementos e acabaram por perder o lance.

Tantos erros não são normais em jogadores que à pouco tempo eram tão inteligentes e fortes nestes processos. Parece-me claro que há um desgaste, e grande, em relação a tudo o que é o processo e o cansaço existente é sobretudo psicológico. As decisões não podem ser boas, o pensamento não pode ser o melhor, quando não estamos focados e disponíveis nas acções que realizamos.

Descodificando Funes Mori


O Benfica anunciou hoje a contratação de Funes Mori ao River Plate para reforçar a sua equipa. O avançado argentino de 22 anos chega numa altura em que era criticado pelos adeptos do River, despertando a normal desconfiança em Portugal por quem não o conhece. O último jogo de Funes Mori ao serviço do River data do dia 17 de Junho quando a sua equipa saiu derrotada do campo do Lanús por 5-1. Nesse mesmo mês, no dia 3, jogou frente ao Argentino Juniors. E foi esse o jogo que fomos ver.

1ª Parte:

1' Sai em pressão ao portador da bola originando um mau passe e recuperação da posse.

2' Canto ofensivo, foge bem à marcação mas guarda-redes antecipa-se quando se preparava para finalizar.
6' Livre lateral ofensivo, foge à marcação e tem um bom cabeceamento, ainda distante da baliza, para defesa apertada do guarda-redes.
7' Transição ofensiva, entra em mobilidade no centro de jogo, recebe em rotação com o pé esquerdo, toca num colega e procura espaço para receber.

8' Disputa bola no ar, ganha e joga de cabeça para colega, entrando em ruptura, recebendo na frente, procurando nova tabela com o avançado que é interceptado.
10' Recebe, roda, toca num colega e desmarca-se entre-linhas para receber.
11' Lançamento, sai da posição, vem buscar jogo, recebe no peito, joga com colega e desmarca-se para receber.
11' Novo lançamento, recebe no peito, fixa defesa em protecção à bola e joga para colega procurando devolução que não acontece.
13' Recupera bola dentro do seu meio-campo, sai em transição rápida em progressão com bola, procura a tabela para ir receber nas costas do defesa, recebe, roda e joga no lado contrário originando uma situação de 3x2 favorável. O colega que recebeu perde a bola.
15' Alívio do defesa da sua equipa, bola difícil mas antecipa-se ao defesa, tocando a bola para um colega.
18' Baixa para receber, falha recepção mas colega fica com a posse.

19' Recebe sobre a esquerda, toca num colega e vai buscar na frente, adversário intercepta.
19' Lançamento estudado, recebe dentro da área depois de combinação com colega, muito pressionado remata por cima.

21' De costas procura rodar para passar mas acaba desarmado.
22' Recebe descaído pela esquerda dentro da área, trabalha sobre o defesa mas remata de pé esquerdo muito por cima.
22' Ganha bola de cabeça a meio-campo.
25' Toca e desmarca-se.
26' Sai da posição para arrastar defesa, lançando o seu colega o passe nas suas costas para avançado.
29' Recebe e combina com colega para saída em transição.
32' GR pontapeia bola, ganha nas alturas no meio de 2, criando situação para passe de ruptura interceptado.
37' Recebe bola na esquerda, alguma dificuldade na recepção junto à linha, fazendo passe para trás quando podia ter arriscado 1x1.
41' Passa para colega e desmarca-se.

2ª Parte:

50' Disputa bola no ar.
51' Perde bola mas recupera de seguida e passa para colega em apoio frontal.
52' Recebe no peito, combina com colega e vai buscar na frente, joga 1x1, faz o drible e sai para situação de finalização mas sofre falta.
57' Baixa no campo para receber, toca no colega e desmarca-se.
59' Começa a jogar como elemento mais fixo pelo corredor central.
60' Transição ofensiva do River, sobre a direita vem em ruptura, consegue ultrapassar o adversário mas é carregado.
66' Vem buscar jogo, recebe o passe e tenta jogar de primeira mas erra o passe.
73' Recebe bola dentro da área, num movimento de saída para ganhar espaço, roda sobre defesa, tenta o remate já em queda interceptado. Consegue a recuperação, fixa o defesa em progressão, toca no colega mais próximo que remata por cima.
76' Depois de canto defensivo, passe para fora da zona de pressão.
77' Cruzamento largo, ganha as costas do lateral, recebe de peito dentro da grande área e em excelente posição remata para grande defesa do guarda-redes do Argentinos. Era o 1-0.
94' Disputa bola no ar.

O Argentinos venceu por 2-0, com dois golos já para lá do minuto 80. Funes Mori teve nos pés o golo que colocaria a sua equipa em vantagem pouco tempo antes. Eclipsou-se do jogo a partir desse momento, muito por culpa de uma equipa do River desarticulada, sem dinâmica colectiva e com um futebol muito pouco pensado e objectivo.

Neste jogo em particular, a equipa então treinada por Ramón Diaz jogou em 4x3x3 com Funes Mori a ocupar o lado esquerdo do ataque, embora com liberdade de movimentos para procurar o jogo interior e dar um apoio mais directo ao avançado Luna. Teve 3 ou 4 situações de finalização que desperdiçou, mas só uma delas de flagrante golo, num River que pouco ou nada rematou à baliza para além do agora reforço do Benfica. Não tenho problema pois, em avaliá-lo como o melhor elemento ofensivo da equipa no jogo.

Numa análise mais global aos jogos observados de Funes Mori, sobretudo pelo River Plate, importa perceber que o contexto não era o melhor para si. Equipa desarticulada, sem um modelo atractivo e pouco jogo exterior, e sobretudo interior, a servir os avançados. Futebol directo, pouco pensado, muito na base da luta e de situações individuais.

A confiança do jogador. Ao longo do tempo foi sofrendo vários problemas com os adeptos e com a própria estrutura técnica e de desconfiança com as suas qualidades. Teve alguns falhanços comprometedores e acabou por deixar-se arrastar numa espiral negativa em seu redor. Contudo, e analisando globalmente as suas características:

Jogador dotado. Alto, possante, veloz, não tem medo de ir ao choque, disputa sempre bolas difíceis e sabe segurar a bola em protecção. É rápido, daí ter jogado alguns jogos fora do corredor central. Bom poder de impulsão.

Parece algo trapalhão, por vezes, sobretudo na recepção, mas tem qualidade em progressão. Sabe jogar, passa bem, tem técnica de remate, tem capacidade aérea, boa técnica de cabeceamento, trabalha bem os lances.

Percebe o jogo e tem uma cultura acima da média da restante equipa. Bom poder posicional, procura sempre boas opções, sabe jogar entre-linhas e em combinações directas (movimentação preferencial). Por vezes incompreendido pelos colegas em muitos lances.

Em termos psicológicos parece claramente condicionado em muitos momentos. Poucas vezes arrisca uma situação de 1x1 tendo qualidade para sair vencedor e em situações vantajosas, não tem muito tempo a bola nos pés, procura sempre uma opção próxima. Mas é inteligente ao fazê-lo, passa e procura receber em zonas que lhe permitam progredir.

No River, como nem sempre jogava como avançado posicional, andava longe da área, o que lhe retirava do seu habitat natural, embora demonstrasse qualidade a jogar numa posição mais recuada ou mais lateral. Finaliza bem de cabeça, tem qualidade de movimentação dentro da área, mas falta-lhe maior frieza e serenidade a finalizar, o que surge, muitas vezes, nos avançados, só a partir de uma certa idade, ou em outros casos, só através de confiança e de atingir determinado estatuto que o permita libertar e tranquilizar.

Fazendo o transfer para o Benfica, Funes Mori vem para jogar como elemento mais posicional ou no apoio a outro jogador mais fixo. Pode jogar pelo centro ou pela ala (mas sempre como avançado), até entre-linhas, acaba por ser um jogador completo em termos daquilo que é a margem que tem para ser potenciado em determinada função.

Tem qualidade, está longe de ser o jogador que os adeptos do River pintam dele, mas não se espere que seja o jogador para fazer esquecer um passado mais recente do Benfica de Óscar Cardozo. Pode ser uma opção válida e ainda me parece um produto totalmente inacabado de um jogador que ganhando tranquilidade, estatuto e serenidade em muitas das suas decisões, poder constituir uma boa surpresa (face às expectativas) de um Benfica que não está, neste momento, numa fase positiva para dar confiança a este tipo de atletas.

domingo, 18 de agosto de 2013

O craque da Liga



Quando aqui falei nele sabia ao que vinha. Vi vários jogos do Quintero para perceber o jogador que ali estava. E faz a diferença para todos os outros num aspecto: capacidade psicológica. Este é o critério que diferencia os grandes jogadores, dos outros. E deu para perceber no Mundial sub-20 no jogo com a Coreia. A sua selecção não encontrava formas de romper a defesa coreana e o Quintero ia tentando de todas as formas, sempre sozinho. Aos 96' há um livre descaído para o lado direito. Naquele momento, qualquer jogador "normal" cruza para a área. Mas há os outros. E Quintero assume o remate e faz um golão. Tal como hoje, no primeiro toque na bola na estreia no campeonato. Quintero assume sempre o jogo, não tem receio de arriscar, chama a ele as decisões e dá-se bem.

Jogador que pode atingir um nível de topo no futebol, mais do que qualquer um do nosso campeonato. Vai ser um ano para desfrutar de o ver pelos nossos relvados.

Benfica longe dos princípios que o notabilizaram



A equipa do Benfica já vinha deixando sinais preocupantes na pré-temporada sobretudo a nível da organização e transição defensiva. Factores esses que têm sido comuns aos anos de Jorge Jesus no Benfica e que este ano voltariam a ser os principais entraves a um Benfica vencedor. Contudo, hoje na Madeira, foram os princípios ofensivos que estiveram muito longe daquilo que a equipa encarnada nos foi habituando.

Desde logo com o onze inicial. Procurando um maior equilíbrio e controlo dos momentos do jogo, não desequilibrando tanto a equipa em ataque posicional com a inclusão de Ruben Amorim e um jogador bem mais culto como é Enzo Pérez no lado direito, a verdade é que o treinador do Benfica desfez a dupla de maior sucesso do ano anterior (o argentino e Matic) e retirou largura e profundidade ao seu futebol. A progressão praticamente não existia, ninguém se movimentava entre-linhas criando superioridades numéricas ou obrigando a defesa do Marítimo a desposicionar-se.

Os madeirenses deram o controlo ao Benfica, não se importaram em dividir o jogo, e tiveram tarefa fácil em organização defensiva, com uma basculação fácil e a um ritmo pouco intenso o que não lhes trouxe problemas. O Benfica não teve mobilidade, não demonstrou qualquer referência em termos de dinâmica colectiva, não teve imaginação e assim torna-se muito mais difícil.

ps: Já elogiei muitas vezes Maxi Pereira mas de há 2 anos para cá, já não tem nível para jogar no Benfica. Não faz contenção, joga todos os lances à queima, não temporiza, posiciona-se mal, corre mal, tem dificuldades grandes em perceber o jogo... assim não!


Bergkamp, o Rei da Técnica



Dennis Bergkamp é, nos dias de hoje, treinador adjunto do Ajax, campeão holandês. Para muitos jovens, é apenas um nome igual aos outros. No entanto, para quem teve a felicidade de viver na era do holandês, jamais esquecerá este nome. Dennis Bergkamp, também conhecido como Ice Man, foi durante largos anos um dos melhores jogadores ofensivos do futebol mundial.

Existiram jogadores com recursos técnicos infindáveis e que foram elevando para outros níveis o que era possível fazer com uma bola de futebol. Mas Bergkamp era Bergkamp. Wenger, seu treinador no Arsenal, disse um dia: "Se conhecerem alguém que jogue melhor do que ele, avisem-me". E eu digo: Se tiver existido um jogador superior a ele em termos técnicos, convido a deixarem o nome na caixa de comentários.

Bergkamp nem se destacava especialmente pelos dribles, mas era o rei da técnica, em todas as dimensões. Técnica de passe, técnica de recepção, técnica de remate, técnica de condução...tudo parecia fácil nos pés do holandês que fez alguns dos mais incríveis golos da primeira década do novo século.

Dennis Bergkamp teve o azar, ou a felicidade, de estar sempre rodeado de grandes craques, o que acabou por esconder, de certa forma, o seu brilhantismo individual, elevando para outro nível o colectivo, porque ele era essencialmente um jogador de equipa. Um jogador temível no último passe e na definição dos lances, na capacidade de percepção do jogo, na inteligência da sua leitura e com uma tomada de decisão ao nível dos melhores de sempre.

Mas voltando aos companheiros. Fez a formação no Ajax, onde se estreou pela equipa profissional e passou 7 temporadas. Marcou 122 golos, ganhou 1 Liga Holandesa, 2 Taças, 1 Taça Uefa e 1 Taça das Taças. Ao seu lado, estavam nomes como Van Basten, Rijkaard, Danny Blind, Davids, Seedoorf ou os irmãos De Boer. Transferiu-se para o Inter de Milão, por 20 milhões de € no ano de 1993, actuando duas épocas, e ganhando nova Taça Uefa. É então transferido para o Arsenal de onde não mais saiu. No clube inglês venceu 3 Ligas, 4 Taças e 4 Supertaças. Faltou-lhe novo título europeu para coroar uma brilhante carreira, mas sobretudo para o elevar para outros patamares, que também Thierry Henry, Robert Pires, Patrick Vieira, por exemplo, seus companheiros no Arsenal, podiam ter atingido.

Em termos de prémios, e apesar de nunca ter ganho uma Liga dos Campeões ou uma grande competição pela sua selecção onde foi internacional por 79 vezes, fazendo 37 golos, ficou por 2 vezes em 3º lugar nos prémios FIFA para jogador do ano, 3 vezes em 2º no prémio World Soccer e em 2º e 3º na bola de Ouro oferecida pela France Football.

Dennis Bergkamp ficou ainda conhecido pelo seu medo em andar de avião, o que lhe fez perder alguns compromissos europeus pelo Arsenal e pela sua selecção. Segundo consta, só participou no campeonato do Mundo de 94 porque foi anestesiado pelos médicos para ir a dormir durante o voo. 

Bergkamp notabilizou-se enquanto jogador mas podia ter escrito o nome na história com outro brilho se tem tido a sorte de vencer uma grande competição a nível Europeu ou mesmo Mundial. Era e será sempre relembrado por todos os amantes do futebol pela sua veia artística capaz de atingir níveis soberbos.


Historial:
Épocas                  Clube                     Jogos                Golos
1995-2006           Arsenal                    423                    120
1993-1995       Internazionale                72                      22
1986-1993             Ajax                      237                    122

Selecção Holanda                                  79                      37