quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Os mesmos princípios em diferentes modelos


Ando há algum tempo a procurar ver jogar Arsenal e Barcelona. É sempre objecto de estudo para qualquer pessoa interessada em observar e estudar o jogo. Para além de dois dos melhores treinadores do Mundo, acredito que a diferença é que um já conseguiu encontrar forma de equilibrar a sua equipa defensivamente, também pela maior qualidade de que dispõe. O outro, propriamente, ainda não.

É que ver Barcelona e Arsenal é ver duas equipas com princípios bem definidos. Um retrato real do futebol simples e bem jogado. Demasiado fácil até, diria. Movimentos quase sempre rotinados, posições de mobilidade definidas, desequilíbrios individuais sempre criados pelo individual na forma como pensa e executa rápido.

Contudo, ambos jogam da mesma forma, com sentidos e objectivos distintos no seu modelo. Ver o Barcelona é observar uma equipa em posse e circulação, de certa forma mais lenta e pensada na fase de transição e construção, mas que acelera, e de que forma, na zona de decisão, em movimentos entre-linhas e de ruptura sem bola dos seus elementos da frente, onde se junta, invariavelmente, um quarto elemento, de nome Iniesta, quando um dos defesas laterais faz penetração no corredor central com bola.

O Barcelona define o corredor lateral como o seu meio preferencial para atingir o golo, através do toque curto e da capacidade de colocar no centro de jogo, quase sempre superioridade numérica em relação ao seu adversário. Não em termos do número, mas da forma como ganham metros e crescem no campo pela dinâmica e intensidade na zona de decisão dos seus mais fantásticos artistas.

O Arsenal difere aqui. O corredor lateral funciona apenas como uma extensão do seu predilecto corredor central. Quase como definindo os corredores laterais como zonas desocupadas onde só entram os "jokers" para fazerem posse de bola. O Arsenal, ao contrário do Barcelona em largura, fazendo "campo grande", joga de forma mais estruturada no corredor central, oferecendo-lhe muita profundidade e num jogo então semelhante ao Barcelona mas com penetração e progressão, invariavelmente, pelo corredor central. O que talvez lhe dê, também, pior capacidade defensiva pois a equipa pouco tempo tem para fazer a recuperação e se equilibrar defensivamente.

Como os mesmos princípios e os mesmos métodos (ataque rápido e ataque posicional), podem ter vivências diferentes dentro dos corredores e sectores de um campo de futebol. O Arsenal joga a todo o gás na zona de construção e decisão, espaçando e pensando mais a sua zona de transição. Algo que daria horas e horas para estudar...

Jorge Jesus de cachecol não é o mesmo


É um Benfica ainda à procura da sua identidade. Não única e exclusivamente pela derrota de hoje, mas também. Independentemente da boa exibição na Madeira e do crescendo motivacional, em grande parte verificado pela vitória frente ao velho rival na semana anterior. O problema está na forma como esta época foi e continua a revelar-se mal preparada.

Como o Benfica procura encontrar um esquema de jogo alternativo para anular, de certa forma, a inexistência de duas peças fundamentais para o seu modelo no esquema anterior (ou actual), a potenciação de Coentrão num lugar onde se revelou realmente muito forte - e como extremo continuo a dizer que também o é -, mas o avançar e recuo de ideias face a esse plano de jogo. É que Coentrão joga onde o Mister quiser, é verdade. Mas o Benfica procura agora disfarçar e atenuar a saída de Dí Maria e encontrar alguém que faça as suas funções. Impossível, digo eu.

Até porque jogar uma Champions debilitando um corredor lateral em constante pedido de auxílio, fazendo Coentrão imensos movimentos de apoio ao defesa esquerdo, pois ter Farfán ou Rakitic em constantes situações de um para um com Peixoto anula qualquer possibilidade de exploração desse flanco em superioridade numérica em transição ofensiva, pois qualquer dos jogadores que abandone o corredor central para intervir no centro de jogo (com bola no corredor), oferece à outra equipa possibilidades várias de desequilibrar no contra golpe.

Está visto que Cardozo não tem perfil para este tipo de jogos. E até pode fazer 3 ou 4 golos no próximo jogo europeu. Mas continuo a dizer que no contexto europeu em que o Benfica tem de ter entre 75 a 85% dos seus lances nos momentos de transição ofensiva e organização defensiva, Cardozo torna-se pouco útil pela forma como raramente oferece possibilidade de desequilíbrio no primeiro toque, e na forma pouco capaz com que dificulta o trabalho dos defesas contrários e essencialmente os obriga a recuar no terreno pelos seus movimentos de ruptura que permitam à equipa ganhar metros e encurtar linhas para não ter os sectores tão distantes como hoje se verificou.

Os grandes também erram e no futebol quem não ganha torna-se alvo fácil da crítica.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Di Maria e Canales: Os elos mais fracos


Hoje ao observar o Maiorca-Real Madrid e a ver o desenrolar das alterações que o jogo foi proporcionando, tenho de referir dois nomes que dentro do que se passou em campo foram, na minha opinião, o grande entrave à vitória de Mourinho na estreia e que não souberam entender o que o jogo precisava na altura que a batata quente lhes chegava aos pés. Não esquecendo a ineficácia de Higuain e a perdida incrível de Ronaldo, Benzema (duvido que com Mourinho volte tão cedo), mas Sergio Canales e Di Maria foram jogadores a mais dentro do jogo, à parte dos companheiros.

O jogo decidiu-se na forma como o Maiorca, inspirado na excelente exibição dos seus dois cérebros a meio-campo, ratos, fortes no preenchimento de espaço, inteligentes na posse e com muita eficácia nos seus processos, falo do canadiano De Guzman e do experiente José Luis Martí, souberam controlar e anular a pouca inteligência que Di Maria e Canales apresentaram no jogo, sobretudo na altura da sua decisão (os primeiros 65 minutos).

Canales parecia estar em todo o lado mas aqui começa a grande diferença entre o correr muito e o correr bem. Para além de posicionalmente demorar a aparecer na sua zona, demorou muito a executar. Pensou muitas vezes bem, soube dar linhas aos colegas, mas demorou a reagir e a decidir. Num jogo onde se pedia velocidade e rapidez de processos, não foi de estranhar que Mourinho o tenha substituído na sua primeira mexida. E isto não retira de Canales o grande valor que ele tem. 19 anos apenas.

Di Maria, a história não é de agora. Mourinho já o disse esta semana, que tacticamente não pensava que ele estivesse tão abaixo do exigível para um jogador de alto nível. Não é novidade para ninguém. Posicionalmente é mau. Eficazmente é mau. Em espaço curto é mau. Tudo bem que é um jogador com uma velocidade de ponta e capacidade de execução totalmente acima da média, mas as minhas reticências quanto a uma transferência para um colosso sempre estiveram aqui: Di Maria não tem ainda a maturidade nas dimensões eficácia/qualidade/regularidade das suas acções para jogar ao mais alto nível de forma constante. A ver vamos.

Mourinho corrigiu e apresentou uma nuance táctica ao seu 4x2x3x1 já aqui explorado, http://vidadofutebol.blogspot.com/2010/08/um-real-carborar.html, fez entrar Ozil para vagabundear à frente do duplo pivot defensivo constituído depois por Xabi Alonso e Khedira, embora fisicamente o alemão contratado ao Werder Bremen por 15 milhões de € não esteja ainda com a intensidade e o fulgor que o caracterizam, sobretudo a forma como consegue pensar e executar rápido, com qualidade, invariavelmente, mudaram o jogo do Real então num 4x2x1x3. Benzema pela lentidão e sobretudo pela pouca agressividade de abordagem aos lances não terá dias fáceis com Mourinho. O Real não ganhou o jogo pela pouca eficácia de Higuaín, que até fez um bom jogo, e por uma perdida incrível de Ronaldo por manifesta pouca coragem na hora da finalização, preferindo abordar o drible perante o guarda-redes.

Mau teste para o Real mas nada de preocupante. A equipa está ainda à procura das suas rotinas e dois jogadores fundamentais na forma de jogar desta equipa estiveram hoje grande parte do tempo de jogo no banco de suplentes, falo de Khedira e Ozil. E falta também ao Real a contratação de um avançado diferente de Higuaín e Benzema. É que o argentino está um jogador de grande classe, e até pode explorar mais de si no apoio directo a outro elemento mais de corredor central e zona de finalização na frente de ataque. Não sei porquê mas acho que Mourinho vai voltar a ir às compras...

domingo, 29 de agosto de 2010

Hleb - Driblando pensando


Apesar de já se arrastarem as negociações há alguns dias, parece que só um volte face grande retiraria ao Benfica a possibilidade de contratar o jogador bielorrusso Alieksandr Hleb ao Barcelona, ele que esteve na época passada emprestado ao Estugarda da Alemanha. Aos 29 anos, depois de uma formação no BATE, colocou o seu talento ao serviço do Estugarda, de onde se transferiu para o Arsenal.

Falar de Hleb é o mesmo que pensar o drible puro e a execução de fintas constantes enquadrando essa acção técnica individual no campo colectivo da decisão e do pensar no momento seguinte da acção ofensiva da equipa. Pensar em Hleb com bola é imaginar um cérebro no último terço, idealizando a zona de decisão, utilizando o drible como necessidade para expor os seus recursos.

Talvez surja como um dos jogadores mais fortes nesta dimensão. Perdeu espaço no Arsenal, primeiro, depois no Barcelona, mas não será por isso que retira a qualidade que este jogador denota. Nem teve das épocas mais felizes, na temporada passada, no "seu" Estugarda, pelo que espera, este ano, relançar a carreira, pois ainda vai a tempo de se sentir útil e importante em algo.

Hleb não é um jogador de curva descendente, pois pela forma como pensa e executa ainda vai perdurar nos próximos anos. Ao contrário do que fazem alguns dos jogadores que utilizam a finta como necessidade e forma de construir e desamarrar, sempre, zonas de pressão defensiva, Hleb utiliza-a como forma de chegar ao que pretende. É como se estivéssemos a imaginar um 10 de construção, mas que aborda o drible para chegar ao espaço que pretende, idealizando o lance que escolheu para definir.

Nos dois sistemas mais utilizados por Jesus esta temporada, o 4-1-3-2 ou o 4-3-3 mais posicional, Hleb poderá fazer a faixa esquerda ou a faixa direita do ataque, dependendo dos objectivos e das necessidades posicionais que Jesus pretenda. Não será nunca um jogador de equilíbrio defensivo, ou de contenção. Hleb é um criativo. Também faz a posição 10, onde considero ser o lugar que mais explora o que tem. Protótipo do 10 moderno.

De qualquer das formas, continuo a pensar que este Benfica necessita de um jogador de maior equilíbrio e que permita ligar de forma mais próxima os variados momentos de jogo do Benfica de acordo com as suas mudanças estruturais derivadas dos equilíbrios e organizações posicionais que apresenta.

Agora, com a possibilidade de Hleb ser reforço, e que reforço, creio que entraria imediatamente para top 3 deste campeonato. Em forma e com poder de decisão, liberdade de mobilidade para pensar e executar nos espaços que ele próprio os constrói, este Benfica cresce muito na sua zona de construção, algo que estava a perder de certa forma com a ainda não explosão de Gaitán. Jogadores totalmente diferentes mas facilmente conciliáveis. Imaginar Hleb é pensar Aimar na cabeça e Di Maria nos pés.

O tosco, e o toscano


Apenas algumas notas em relação aos últimos dias. O Zenit, com um Danny a revelar o porquê de ser dos melhores jogadores portugueses da actualidade em grande parte dos aspectos, acabou por ficar fora da Liga dos Campeões pela forma desactualizada e incrivelmente preparada com que o técnico do Zenit abordou o jogo em França.

Não sei se foi ocasional ou esta é a sua forma de entender o jogo, mas uma equipa de alta roda a fazer marcação individual em lances de bola parada defensiva (nomeadamente, e sobretudo, os cantos), deixa-me a pensar bastante. A defesa à zona, hoje, e sempre, vem resolver muito dos problemas que as equipas enfrentam nas bolas paradas. Há um espaço definido, uma zona de acção que os jogadores defensivos irão preencher e abordar com eficiência - esperada - e quase um bloco colectivo, cada um com a sua missão, de forma a conseguirem retirar o perigo iminente de um lance desse tipo.

Fiquei estupefacto ao ver jogadores como o Bruno Alves e o Fernando Meira, sem olhar para a bola (o principal do jogo), a correrem atrás do seu alvo de marcação. Eu pergunto. Se o jogador que olha exclusivamente a bola, é ou não mais rápido que o adversário, tem ou não melhor tempo de salto, consegue ou não, em movimento, coordenar melhor a sua corrida de forma a chegar à bola em primeiro lugar, cria natural perigo. O Zenit foi eliminado e os dois golos do jogo surgiram de dois cantos a favor do Auxerre. Dá que pensar.

No dia de hoje chamou-me à atenção a gestão vimaranense. Bebé foi vendido por 9 milhões de € ao Manchester United, o maior encaixe de sempre de um clube não-grande em Portugal, e arrisco dizer, o maior valor de sempre pago por um jogador tão desconhecido, e os responsáveis do Vitória, com tudo planeado e com uma velocidade de acção sempre importante nestes casos, assumiram a compra, por 500 mil euros, de um jogador brasileiro, que Manuel Machado era perfeito conhecedor, pois elogiou-o e frisou as suas melhores e principais características antes da compra, 26 anos, de nome Toscano.

Hoje quem viu o jogador brasileiro a vagabundear por toda a frente de ataque e com uma velocidade de processos e acima de tudo qualidade na execução acima da média, ficou com claras certezas que o Guimarães ganhou em todas as vertentes. Eu acho que Bebé iria rebentar neste campeonato como aliás escrevi na pré-época. Ele e João Ribeiro de quem acho Portugal poder aproveitar bem mais nos próximos anos. Mas 9 milhões vs. 500 mil euros, e qualidade semelhante, ou rendimento actual talvez a favor do brasileiro, faz-nos pensar.

Toscano assumiu a batuta e com poucos treinos com os colegas, deitando para trás tempos de adaptação, e mostrando o seu futebol, ganhou um jogo com 3 golos e deu os primeiros pontos à sua equipa. Promete dar mais. E os grandes que comecem a olhar com atenção a este jogador.


Nacional 1-1 V. Guimaraes

Simão | Vídeo do MySpace



Nacional 1-3 V. Guimaraes

Simão | Vídeo do MySpace

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A aposta na formação


Bom Dia. Hoje é dia 26 de Agosto. Faltam 6 dias para o fecho do mercado e os clubes, alguns, já há mais de um mês que têm o plantel fechado. As rotinas começam a ser criadas. O modelo de jogo implementado com aquilo que existe. As políticas e objectivos definidos. Os jogadores ganham o seu espaço e outros perdem-no. Uns cimentam a aposta do técnico, e vão agarrando as oportunidades. E há os outros...

Hoje falo de um dos outros. Considerado aos 16 anos (onde foi internacional sub-19) uma das maiores promessas do futebol português dos últimos anos, Nelson Oliveira, uma das caras que integra o futebol profissional do Benfica, no que ao seu quadro de activos diz respeito, encontra-se sem clube. Ou melhor, tem contrato com o Benfica, mas chega ao dia 26 sem ter colocação.

Nelson Oliveira num possível sistema de 4-3-3 que Jesus está a carborar, teria todas as condições para se assumir como uma opção útil. Não estaria em pé de igualdade com Salvio, Jara, Kardec, Cardozo ou Saviola, é certo, mas pelo menos as mesmas condições face ao talento-potencial teria do que Rodrigo, Weldon ou Nuno Gomes.

O miúdo é bom de bola, e sempre o mostrou. Jogador de movimentos de ruptura interiores, onde explora a sua capacidade física, com qualidade técnica, bom em progressão e com um remate forte na zona de finalização, tem todas as condições para marcar uma geração no protótipo de avançado de futuro, coisa que há muitos anos não existe em Portugal.

A aposta na formação foi feita desta forma. Gastaram-se 6 milhões de € num jogador de fora, com a mesma idade e os mesmos requisitos do Nelson Oliveira, ele treina com o plantel, mantém o ritmo, não se sabe se fica ou se sai, e o português... que é feito dele?

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

O futuro de África


Todos sabemos que ao longo dos tempos, o grande suporte de algumas das mais fortes selecções europeias têm sido os jogadores que acabam por importar em África, quer seja por raízes coloniais, quer por estes jovens saírem cedo do seu continente e procurarem a sorte na Europa. Acontece que um dos países que tem revelado maior aptidão para o lançamento de talentos no futebol está agora a erguer-se e a mudar de política.

Norton de Matos assume a selecção da Guiné-Bissau e revela uma mudança radical nas perspectivas daquele país. Foi às convocatórias das selecções jovens de Portugal e recrutou os seus melhores jogadores. Com ascendências guineenses e que ficam agora "presos" à Guiné, pois em caso de realizarem a primeira internacionalização, já não poderão jogar por outra selecção.

Na nova lista do técnico português constam os nomes de Éder da Académica, um ponta-de-lança já aqui falado no blog:

Éder (Académica)
Idade: 22 anos
Peso: 81kg
Altura: 188cm
Nacionalidade: Guineense

Formado no Oliveira do Hospital e com passagem pelo Tourizense, Éder aparece como uma das principais apostas da briosa para esta época. Jogador de grande porte físico, veloz e que oferece muito trabalho aos centrais, tem características pouco vistas no nosso futebol e que o podem catapultar para uma carreira interessante no nosso país. Neste segundo ano de Briosa, a aposta é outra, e ele vai fazendo por merecer, sendo uma das peças chaves na estrutura de Villas Boas. Vamos ver a sua evolução, mas que há potencial, isso parece-me indiscutível.

Cícero e Ivanildo, duas promessas adiadas do futebol nacional, com possibilidades de se afirmarem agora na sua selecção natural. Pelé, do Belenenses, um jovem produto de talento que promete construir boa carreira em Portugal. Zezinho do Sporting, estrela dos Juniores. Danilo, o badalado ex-Junior do Benfica transferido para Itália. Baldé, um jovem do Porto. Lassana Camará, ex-Junior do Benfica. Kaby, jogador das camadas jovens do Chelsea. Ednilson do Dinamo Tiblisi e Moreira do Partizan.

Muita atenção a estes nomes e ao crescimento que a Guiné Bissau vai certamente revelar.

sábado, 21 de agosto de 2010

O novo Benfica partido em 2


Não era difícil de adivinhar o que iria acontecer. Não foi uma debilidade assim tão gritante como, por exemplo, no jogo da Supertaça, mas a falta de ligação e de equilíbrios deste Benfica nos seus momentos de jogo é gritante, e os resultados surgem naturalmente para uma equipa que joga num bloco tão alto e de pressão constante sem alguém que lhe confira equilíbrios e permita jogar dessa forma.

O Benfica voltou a apostar no 4-1-3-2, com a variante do 4-1-2-3 em organização ofensiva a meio da primeira parte, melhorou substancialmente, mas com o decorrer dos minutos, e sobretudo nesta fase inicial da época, iria-se colocar a nu as fragilidades de uma equipa que não encontra forma de se equilibrar. Tudo isto por faltar um jogador com características para o fazer. Não porque as dinâmicas colectivas estejam erradas. Erro é mantê-las, não tendo forma de as fazer executar.

Momento Organização Ofensiva:

Até acaba por ser das melhores fases deste Benfica. Será natural pelos jogadores que tem e sobretudo pela qualidade de penetração dos executantes. Saviola, Coentrão, Aimar, por exemplo, garantem imprevisibilidade e qualidade no espaço, dando algo mais à organização estrutural da equipa, com tremenda mobilidade. O Benfica este ano sem a presença de Di Maria, fundamentalmente um jogador de linha, de largura e profundidade, joga demasiado pelo corredor central, não o explorando da melhor forma pois concentra nele, sempre, uma imensidão de jogadores em cobertura defensiva do adversário. Falta um jogador diferente de Gaitán, pois já o disse várias vezes, não será jogador para aquele lugar frente a adversários fechados.

Momento Transição Ofensiva:

O Benfica aqui perde. E muito. Primeiro porque não podemos diferenciar de forma estruturada os vários momentos do jogo da equipa. Ambos dependem uns dos outros para subsistir e dar aos jogadores as condicionantes necessárias para os abordarem. O Benfica pela deficiente forma como se equilibra defensivamente actualmente, encontra problemas na forma como efectua as suas transições por um aspecto: não tem capacidade de progressão sustentada em cobertura. Os jogadores são deixados demasiadas vezes soltos em acções individuais de um contra um e o apoio próximo em acção de cobertura ofensiva não existe. Isto porque não há o fôlego do tal jogador de equilíbrios para permitir aos outros elementos sair da sua zona de forma a não terem constante preocupação em caso de perda de bola numa altura em que a equipa não se encontra equilibrada recuarem e preencherem os posicionamentos da organização estrutural defensiva da equipa.

Momento Transição Defensiva:

A grande lacuna do Benfica actual. Completamente partido em 2. E passo a explicar. Quando o Benfica sofre transições rápidas ou contra-ataques dos adversários, normalmente, pelo volume ofensivo que apresenta e pelo seu modelo de jogo incutir imensas subidas e penetrações dos laterais, o 6, jogador de primeiro equilíbrio, acaba por ter de se posicionar numa zona de apoio à ultima linha defensiva, desguarnecendo a zona central, de cobertura ao 10 e aos 2 médios alas agora em acção de médios interiores. Essa zona se for rapidamente ocupada por um deles permite à equipa um equilíbrio maior na zona de pressão e na zona onde existe bola. Caso o centro de jogo seja rapidamente variado, há tempo para a equipa se equilibrar e organizar correctamente. Este Benfica erra vezes sem conta neste aspecto. O 6 vai fazer equilíbrio da organização estrutural defensiva, o 10 tem dificuldade em recuar rápido para essa zona, e nenhum dos interiores fecha o espaço 6 - à frente dos centrais - correctamente. Os adversários exploram-no muitas vezes.

Momento Organização Defensiva:

O Benfica aqui continua bem. Estruturado e com qualidade. O grande problema está na forma como a equipa demora a equilibrar-se. E neste campeonato com contra-ataques rápidos e transições a serem a principal forma das equipas utilizarem o seu método da fase ofensiva, faz com que o Benfica seja vulnerável sob o aspecto da forma como defende. Até porque continua Jesus a jogar num bloco alto e de pressão subida, mas sempre que o adversário se organiza e espera a altura certa para explorar a zona do corredor central em transição ofensiva, cria problemas.

Momento Bolas Paradas:

A acção e coragem do guarda-redes é fundamental. No primeiro golo há um erro posicional defensivo da equipa. A zona do primeiro poste nunca pode ficar descoberta seja de que forma for. Ainda por cima numa bola que de forma perspectiva iria ser colocada naquela zona. Roberto não está isento de culpas, mas a equipa é culpada pelo golo. O segundo... não há muito a dizer. Incrível, incrível!

Drenthe mas não para solucionar


O Benfica está a um passo de assinar a contratação do holandês do Real Madrid Drenthe. Dispensado por José Mourinho, tal como já tinham sido dispensados do clube madrileno Javi Garcia ou Saviola, parece que o destino do holandês será mesmo o Benfica.

O reforço de Drenthe vem encaixar numa política de fortalecimento do plantel, sendo claramente um acréscimo de qualidade. Atenção a um ponto. O Benfica não garante com Drenthe um titular absoluto mas é um jogador com todas as condições para ser figura aqui. É que ser dispensado do Real não é necessariamente um mau predicado. Um plantel de topo, onde só os melhores dos melhores têm lugar. E qualquer dispensável daquele grupo, é figura de cartaz de uma equipa do nosso campeonatozinho.

A grande diferença do Benfica do ano passado para este prende-se com a falta de equilíbrios e de ligação entre linhas nos vários momentos do jogo do Benfica. Será um dos próximos posts, provavelmente depois do jogo na Madeira onde mais uma vez essas debilidades ficarão a nu (em menor expressão se jogar Amorim).

Drenthe é um jogador de faixa esquerda, capaz de jogar como lateral esquerdo ou extremo esquerdo. Será como Extremo que poderá potenciar de forma mais eficaz o que tem. Aliás, não creio que a expectativa seja de o colocar como lateral. Drenthe virá fazer duo com Gaitán e ambos encaixam bem no mesmo sistema e na mesma forma de jogar. Drenthe é um jogador de maior largura, de profundidade, um jogo mais vertical, capaz de esticar e proporcionar outras opções que Gaitán não dá em certo tipo de jogos.

Gaitán pela forma equilibrada como desenvolve as suas acções, pelo futebol mais de posse e circulação e de inteligência posicional, sobretudo em roturas com e sem bola, irá jogar muitas vezes neste Benfica na faixa direita e no apoio aos dois avançados, não tenho grandes dúvidas. Com Drenthe, o Benfica ganha uma opção à imagem de Di Maria. Com a mesma qualidade? Eu digo que não em perspectiva, mas com potencial para equiparar.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O muito mau contagiante


Numa altura de nova descrença absoluta no reino leonino, em que depois da derrota em Paços, voltam a perder, e logo em casa, frente aos dinamarqueses do Brondby, por 2-0, complicando e muito as contas do acesso às competições europeias esta temporada, resta-me fazer uma análise fria e objectiva aos grandes problemas do actual Sporting.

Muito Mau (Colectivo):

- Incapacidade de criar zonas de pressão e fazê-lo de forma colectiva. A pressão do Sporting é esporádica e espaçada. Ainda não entendi de que forma o bloco se organiza em pressão de acordo com os momentos do adversário. Sai um jogador em pressão correcta para encurtar espaço e queimar linhas aqui e ali, e o culpado é ele, pois não houve seguimento, e ele criou um espaço para o adversário progredir.

- Distância de linhas. Incompreensível a forma como o Sporting não encontra soluções na sua transição ofensiva. Jogam muito distantes, sobretudo o duplo pivot a meio-campo dos avançados. Os movimentos interiores dos jogadores dos corredores laterais que o técnico exploram não são aproveitados pois não existe um apoio frontal imediato de um dos dois avançados, e quando o há, a bola morre ali. Solicitação quase sempre (perdida) do passe longo directo nos homens da frente. O bloco está muito recuado e as segundas bolas são uma miragem.

- Transição defensiva. Péssimo, péssimo, péssimo! Maniche e André Santos demoram eternidades a recuperar, não existindo um ponto fixo de equilíbrio do jogo da equipa em transição defensiva que deveria permitir aos colegas recuperar. Sobem de forma descoordenada e encontram-se quase sempre mal posicionados. Já para não falar dos laterais. A equipa está quase sempre partida em 2 em contra-pé.

- Não será certamente do treino mas o Sporting é das piores equipas do Mundo na zona de finalização. Raramente existem soluções, e quando elas aparecem, alguém as desperdiça. Mal sob o ponto de vista de criação e mobilidade no último reduto. Isto é trabalho e potenciação do modelo de jogo.

Muito Mau (Individual):

- Os sportinguistas adoram a raça e as correrias de João Pereira. Para mim, é mau demais como jogador. Primeiramente instável e sem estofo mental para estas competências. Em adversidade já sabemos quem erra e faz asneira ao nível disciplinar. Depois, muito mau em termos de ocupação do espaço interior e da cobertura defensiva. Fecha mal o seu espaço e é frequentemente batido por mau posicionamento.

- Nuno André Coelho é jovem, tem a sua qualidade, mas longe de ser um jogador de uma equipa que se considera grande. Mediano em quase tudo. A compleição física ajuda a disfarçar mas em antecipação é nulo, em leitura nem se fala.

- Maniche parece não querer assumir nada neste Sporting. Lento a recuperar, mal sob o ponto de vista posicional, sem fôlego para queimar metros entre linhas, fraco no último terço e na organização, tenta invariavelmente os mesmos desequilíbrios: passe para o lateral. Muito curto.

- Postiga é dos melhores avançados da Liga na recepção, no drible sob pressão, na protecção da bola. Apesar de continuar a achar que se trata de um problema de confiança e instabilidade, é o pior da Liga a finalizar. Muito mau.

- Liedson até subiu de rendimento, mas não chega. Não pressiona, não apresenta mobilidade, não cria desequilíbrios, não ganha vantagem em quase nada, e ainda finaliza mal. O que se passa?

Ainda assim...

- É o capitão e está em quase tudo o que existe de correcto no jogo do Sporting. Luta, essencialmente compreende o seu papel dentro de campo, muito inteligente nas abordagens e na forma como consegue fazer subir a equipa a partir de trás. Falo de Carriço.

- Vukcevic já se cansou de ser segunda opção. Vinha a ser dos melhores do Sporting e insiste-se em colocá-lo como reserva. Alguém explique a Paulo Sérgio que ele como segundo avançado e com mobilidade de exploração entre linhas, ia dar que falar.

- Jaime Valdés é o melhor jogador do Sporting. Muito forte no critério, na forma como assume o jogo e encara de frente os adversários. Normalmente jogadores assim, de fino recorte, só correm com bola. Errado. Jaime Valdés também vai atrás dela e luta pela sua posse. Uma surpresa.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Eduardo Salvio em 4x3x3


O país voltou a ficar agitado mas, desta vez, bastaram apenas dois segundos para uma decisão ser tomada. Salvio assina pelo Benfica, um empréstimo válido por uma temporada sem opção de compra aparente no contrato de cedência.

Parece-me agora lógico que o Benfica vai estruturar um 4-3-3 posicional em organização ofensiva com a entrada deste jogador. Não faz sentido Jesus pensar nele como avançado, no 4-1-3-2, pois para além de existirem já opções de sobra (e com qualidade evidente), Salvio assume-se como 2ª opção em termos qualitativos para já. Aqui colocaria-o na mesma escala de Jara, pois ambos desempenhariam as mesmas funções e as mesmas perspectivas de opção.

Num 4-3-3 as coisas mudam de figura. Salvio é um jogador agressivo, muito mexido. É um dos avançados da nova linhagem argentina de pressão alta e qualidade técnica no espaço curto. Pode servir bem descaído numa das alas em constantes movimentos de ruptura interiores. Não me parece que possa ser opção no 4-1-3-2 como extremo direito ou extremo esquerdo, até porque o Benfica nesse sistema (e em qualquer outro) precisa obrigatoriamente de um jogador de equilíbrios e esse ainda está para vir, ou de largura e profundidade, e esse será Gaitán ou o próprio Coentrão.

Salvio vem acrescentar qualidade, parece-me notório, não se perspectiva comparação possível com Urreta, pois Salvio no imediato é melhor opção, pensamos sim no facto de existir um empréstimo de ambos os atletas com o Benfica a perder hipótese de explorar o seu produto para importar um jogador que, à primeira vista, fará apenas um ano na Luz.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Um Real a carborar


O Real Madrid fez hoje novo jogo de preparação frente aos belgas do Standard Liége com um nível de preparação mais adiantado em relação aos espanhóis. Foi interessante observar alguns dos aspectos fundamentais que Mourinho parece querer implementar na sua equipa:

- 4x4x2 com variante de 4x2x3x1 em organização defensiva e 4x1x3x2 em organização ofensiva.

- Abordando o ponto de partida de um 4x2x3x1 em transição ofensiva, com Lass Diarra a assumir papel de destaque por ser focado como primeiro elemento de construção, no passe curto e apoio rápido à lateral.

- Variantes posicionais de ruptura dos avançados em transição, dependendo do corredor em que a bola se encontra. Aqui Ronaldo vai explorar muito em transição ofensiva o flanco esquerdo e aparecerá na zona de finalização com facilidade.

- Foco principal do seu futebol em passe curto e basculação posicional de todos os elementos quer em acção de posse, quer em acção de equilíbrio e organização defensiva.

- Pressão média/alta, equilibrando-se com os duplos pivots defensivos, um em zonas de pressão e de transição do adversário, e outro no apoio ao quarteto defensivo, não permitindo que a equipa se parta em 2.

- Liberdade do elemento de apoio aos 2 da frente para fazer movimentos de ruptura constante, com e sem bola. Aqui Ozil e Kaka vão rebentar com as defesas contrárias.