domingo, 25 de julho de 2010

Dimensão pensar, decidir, executar


A diferença entre a eficácia e a inoperância, está no tempo que demora a ultrapassar essas três condicionantes. O poder de decisão, de escolha, e a forma como realizamos, vai alterar, para o positivo ou para o negativo, o objectivo daquilo que queremos realizar.

Ao observar um pouco o futebol de Jaime Valdés, faz-me olhar alguns anos atrás e não deixar de ter a certeza de estar a relembrar o futebol de Pedro Barbosa exactamente nas mesmas características e acções.

Neste 4x4x2 clássico de Paulo Sérgio, Valdés vem dar outra qualidade e, sobretudo, outro critério e experiência ao sistema do treinador do Sporting. É um jogador rodado, com mestria, muito inteligente e, sobretudo, que pensa muito o seu jogo, decidindo quase sempre bem e quase sempre rápido.

A diferença em relação aos outros baseia-se aí. Não é um jogador muito veloz nem intenso nas suas acções individuais, mas sim criterioso e com uma dimensão extra de qualidade em relação ao que existia no plantel do Sporting.

Os leões parecem-me hoje uma equipa mais forte na forma como pensam, na forma como decidem e, essencialmente, na qualidade dos intervenientes que executam. Matías Fernandez parece que será finalmente potenciado e mostrará o seu real valor. É um dos grandes valores do campeonato se for exprimida a sua qualidade. Um pouco à imagem de Valdés mas com outros argumentos, sobretudo ao nível da velocidade e virtuosismo nos movimentos de ruptura com e sem bola.

Ao contrário do que se vem dizendo, não é um Sporting de se desacreditar, é sim um Sporting que pode vir a pecar por não ter tempo, face ao que foi o ano anterior e à necessidade de revelar evidentes melhorias em termos de resultados, para estruturar e potenciar a sua evolução que é notória.

Falta, sob o meu ponto de vista, um avançado de área, um jogador diferente dos "levezinhos" que residem em Alvalade, capaz de dar profundidade ao jogo dos leões. Um jogador forte no jogo aéreo, rápido a executar, forte no espaço curto e com faro de golo. E, claro, a velha questão dos últimos anos deste Sporting, um defesa central mais forte, com mais qualidade, com mais experiência e, essencialmente, com mais estatuto.

O físico dos jogadores do Benfica


É uma ciência cada vez mais debatida mas parece-me claro que já ninguém acredita nos picos de forma no que ao rendimento físico dos atletas de alta competição diz respeito. Existe uma linha sem grandes oscilações, com naturais quebras e subidas, mas sempre muito orientada e sem grandes piques.

A questão da fugaz exibição de alguns dos principais jogadores do Benfica esta pré-temporada não me parece algo preocupante mas sim estruturado e programado. O nível de trabalho do Benfica de Jesus sempre assentou na periodização e, quanto a mim, é notório que o nível de trabalho não tem sido tão intenso como na época anterior onde, como foi dito várias vezes por Jesus, era necessário arrasar desde início.

Pelo que tem sido observável, as cargas não têm sido tão intensas como se esperaria, o que nos coloca a certeza de que o trabalho desta época ao nível do rendimento físico e global das questões técnico-tácticas (o Benfica ainda não efectuou uma pressão tão subida em momentos largos do jogo como no ano anterior) está a ser diferente e sobretudo a procurar o máximo rendimento dos seus jogadores numa outra fase da época, perspectivando grandes decisões só no ano de 2011, o que para mim parece-me totalmente correcto.

O mais difícil é conseguir manter a toada e o nível exibicional, ponto onde todos os analistas acreditavam que o Benfica ia fraquejar. Eu próprio escrevi algo semelhante, de que a partir daquela altura da época (salvo erro Fevereiro ou Março) iam acabar as exibições fantásticas, com goleada atrás de goleada, e ia começar o talento individual e a rotina colectiva a fazer a diferença. Nem andou muito longe...

Veremos de que forma este Benfica dá continuidade ao seu trabalho. Parece-me, sem qualquer dúvida, uma equipa muito menos desequilibradora e fantasista do que no ano anterior. É certo que só ontem vimos um dos principais elementos da rotura e da imprevisibilidade dos momentos da fase ofensiva do jogo do Benfica, Fábio Coentrão, não temos ainda o "carrossel" do lado direito, pois Ramires e Maxi ainda não se viram, Cardozo só ontem apareceu, e o patrão lá de trás ainda não está em jogo para por a miudagem na linha.

Apesar de tudo, penso ser necessário efectuar a contratação de mais um jogador mesmo que não existam saídas. Um extremo, capaz de jogar em ambos os flancos. Parece-me ser a principal prioridade, pois o Benfica este ano terá naturalmente de ter momentos de maior largura do seu jogo em alguns encontros, não sendo para isso necessário explorar tantas vezes os movimentos de ruptura de Saviola para um dos corredores como aconteceu a época passada em Braga, por exemplo, que o desgasta bastante e este ano ainda mais.

Estou certo que neste Torneio de Albufeira não iremos ver um Benfica tão dominador nem tão espectacular, mas irá existir uma mudança radical no encontro da Supertaça a 7 de Agosto.

Não percam o menino de vista


Numa altura que se volta a falar com insistência na possível saída de Felipe Menezes por empréstimo, é com bastante gosto que vejo essas notícias mas algum receio pelo rumo que se possa dar à sua carreira pelas poucas hipóteses de mercado que existem actualmente no futebol português.

Também pela qualidade que Menezes tem e que é notória, a sua situação tem de ser gerida com maior atenção e perspicácia, sob possibilidade de se perder um talento que pode ainda dar muito ao Benfica.

Menezes é um 10 com características modernas, com excelente capacidade técnica e de drible no último terço, embora ainda sem a objectividade e as dinâmicas necessárias para jogar ao mais alto nível no futebol europeu. Contudo, tem todas as condições para com ritmo e experiência, e isso só se ganha competindo, aumentando os seus níveis de dinâmica e intensidade nas suas acções, para ser figura principal desta equipa do Benfica daqui por 2 ou 3 anos.

Neste sistema de Jesus pode fazer a posição 10, preferencialmente, embora lhe reconheça características de um jogador mais interior e onde pode também actuar com qualidade, embora penso que seja na zona de decisão que deva ser potenciado pela sua excelente capacidade técnica e espontaneidade no remate com ambos os pés.

Não o percam de vista e saibam gerir-lhe a carreira... e que medo tenho eu que seja mais um dos "emprestadados" para a casa mãe, o futebol brasileiro... não cometam esse erro.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Atenção ao talento português


Parece ser uma luz ao fundo do túnel. Lá bem ao fundo, diga-se, mas a aposta no talento português parece começar a ser uma realidade. Há, esta temporada, na principal liga portuguesa, vários jogadores de inegável talento que podem confirmar boas possibilidades de carreira ao mais alto nível no futebol nacional.

Talvez o modelo italiano de actualmente ser possível inscrever apenas um extra-comunitário seja de seguir, até porque olhamos para a nossa selecção sub-19 e apesar dos bons resultados que tem tido, poucos são aqueles - tal como esperado - que apresentam possibilidade de fixação num clube do cimo da tabela no futebol português.

Os empréstimos e as "rodagens" têm sido uma constante e muitos entram no esquecimento. Percebe-se a total inoperância de alguns treinadores em apostar no talento português pois o resultado imediato é o fundamental, ou não fosse este um mundo totalmente dependente do resultado final. Contudo, já é possível observar vários jogadores nacionais nos quadros das principais equipas do nosso futebol. Fica uma lista dos mais promissores:

Beira-Mar:

Diogo Rosado (20 anos) - Formado no Sporting e depois de uma época no Massamá, chega à principal liga do futebol nacional para mostrar o seu talento. Posição 8 ou 10, pé esquerdo de grande valia técnica, muito forte na zona de construção através do passe ou drible, muita atenção à sua meia distância e critério com que ordena todo o futebol ofensivo da sua equipa.

Benfica:

Fábio Coentrão (22 anos) - Época de consolidação. Grande temporada realizou o ano anterior, com o culminar no Mundial onde foi, por ventura, o jogador nacional em maior foco. Ao nível do ano passado, não fica muito mais tempo por Portugal.

Porto:

Castro (22 anos) - Personificação de jogador à Porto. Enfrenta forte concorrência e aparentemente, poucas serão as possibilidades de se assumir já esta época. Muito aguerrido, forte no um contra um, grande pulmão, inteligência no preenchimento de espaços e muita irreverência em transição ofensiva, vai dar que falar.

Ukra (22 anos) - Já o tinha dito o ano passado, é um dos elementos que fazia falta na sua casa mãe depois do empréstimo ao Olhanense. Jogador de flanco, forte no drible e no desequilíbrio em progressão, eficaz, talentoso, e muito irreverente. Vai surpreender.

Moutinho (23 anos) - O ano do tudo ou nada para ele. Mais confiante do que nunca, provavelmente mais motivado e com vontade de provar tudo o que realmente tem. Nunca fui muito apreciador do seu futebol, pela falta de criatividade e imprevisibilidade que oferece jogando na posição 10 (onde se tentou fixar em Alvalade), mas reconheço-lhe toda a eficácia e qualidade de processos, equilibrando e dando a este Porto uma maturidade que não tinha desde Lucho González.

Ruben Micael (23 anos) - Pode crescer muito com a presença de Moutinho para o libertar para outros terrenos. Vem em grande crescimento e parece ser este o seu ano de afirmação. Criativo, rápido, inteligente, vamos ver até onde promete ir.

Paços de Ferreira:

David Simão (20 anos) - Digo-o sem reservas, um dos melhores pé esquerdos do campeonato. Se conseguir imprimir dinâmica e intensidade nas suas acções, vai ser dos melhores da sua equipa. Faz todas as missões do centro do terreno, muito forte na batuta, critério e organização da sua equipa, vai surpreender muito quem não o conhece. Emprestado pelo Benfica.

Braga:

Pizzi (20 anos) - Explosivo, eficiente, forte no drible, muito eficaz nas suas acções, vai dividir com Hélder Barbosa, Matheus ou Paulo César a possibilidade de titularidade na ala esquerda. Tem tempo para se afirmar em Braga.

Hélder Barbosa (23 anos) - Tem de ser o seu ano de afirmação. Finalmente inserido num contexto de equipa grande onde pode assumir papel importante, vamos ver o que pode oferecer. Velocidade de ponta, virtuosismo, irreverência... vamos ver até onde chega.

Sporting:

André Santos (21 anos) - Pode pegar de estaca. Faz a posição 6 e 8 com a mesma qualidade, bastante inteligente e astuto em sistemas distintos, jogador que permite critério no passe e qualidade na organização ofensiva da equipa, também culto e forte sob o ponto de vista defensivo, sobretudo pela qualidade de posicionamento que apresenta. Atenção a ele.

Diogo Salomão (21 anos) - Se crescer a nível físico pode surpreender toda a gente já este ano. Conheço-o bem desde os tempos de Casa Pia onde fazia um ataque temível com Pedro Santos. Muito veloz, muito imprevisível nas suas acções técnicas, aborda o adversário com objectividade para a baliza.

U.Leiria:

Ruben Brígido (19 anos) - Toda a formação em Leiria e parece que será aposta inequívoca. Posição 10, muito veloz e tecnicista nas suas acções, pode este ano ganhar experiência e ritmos que lhe permitam mais ano menos ano dar o salto. Vai dar que falar.

Vit. Guimarães:

Bebé (20 anos) - Muito forte fisicamente, veloz e com excelente poder de drible, vai ser uma das grandes revelações desta prova. Joga em ambas as alas ofensivas, pode jogar também por dentro, assume-se como um jovem muito promissor.

João Ribeiro (22 anos) - Veremos como se adapta a um nível de exigência maior. Os mesmos predicados de Bebé, com a vantagem de já ter alguns anos de 1ª Liga onde sempre se destacou pelo seu leque variado de dribles e eficácia com vista à zona de finalização. Pode ser o ano de afirmação.

Nacional:

Edgar Costa (23 anos) - Mais um ano para se afirmar. Há quem diga que se tem chegado à 1ª Liga mais cedo seria hoje uma das principais figuras da principal liga do futebol português. Ponta-de-lança rápido, forte no drible e nos desequilíbrios que consegue criar pela fantasia que coloca nos seus lances, chega muito bem em zonas de finalização. Atenção a ele.

Rio Ave:

Vitor Gomes (22 anos) - Já não é jogador de Rio Ave. Desequilibrador, forte na organização, com todas as características de um 10 moderno, tem talento para mais. Ano onde pode dar o salto.

Bruno Gama (22 anos) - Já todos sabemos o que esperar dele. Velocidade de ponta, anarquismo, mas bastante irreverência no um contra um, procura afirmar-se no seu 2º ano de Vila do Conde.

Nelson Oliveira (18 anos) - Emprestado pelo Benfica, já com meia época de Rio Ave, vamos ver até onde pode ir. Tecnicista, veloz, desequilibrador, sem receio de assumir o seu futebol, pode surpreender pelas características que fazem dele um jogador móvel de eficácia acima da média.

Portimonense:

Candeias (22 anos) - Mais um jovem extremo formado no Porto. Veloz, tecnicista, capaz de desequilibrar em ambas as alas, tem talento para se afirmar em Portimão.
Vit. Setúbal:

Ruben Lima (20 anos) - Mais uma época de 1ª Liga, onde vai certamente revelar toda a sua qualidade numa posição cada vez mais carenciada no futebol português. Ninguém diz que é jogador para um grande, mas oferece toda a segurança e eficácia defensiva que se pretende para quem quer sofrer poucos golos.

Regula (21 anos) - À procura de se afirmar. Talentoso, criativo, desequilibrador, quando vai aparecer a 100% no Sado?

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Vendido: O mais eficaz goleador em Portugal


Parece estranho o rótulo, mas olhando friamente às estatísticas e ao número de golos que o até então mais eficaz jogador do campeonato português apresenta faz-nos questionar o que esteve por detrás de todos estes meses em que um jogador de grande talento foi encostado vezes sem conta sem poder fazer aquilo que mais gosta. E, ressalve-se, que excelente profissional, que sempre que foi chamado, correspondeu.

Ernesto Farías, embora enfrentando sempre grande concorrência, foi, talvez, o jogador mais valioso menos valorizado nos últimos anos em Portugal. Jogadores com as suas características escasseiam e a forma como o Porto se desfez de um excelente jogador abre imensas questões.

El Tecla, jogador para poder jogar sozinho na frente, ou no apoio a outro jogador mais fixo, podendo também desempenhar essas funções, encaixa em todos os sistemas e esquemas de jogo que um treinador pode escolher, sendo bastante forte em espaços curtos onde resolve com muita qualidade. Exímio no jogo de cabeça, é um verdadeiro rato de área sempre no local certo para facturar. Muito inteligente e tremendamente eficaz, saiu a custo zero para o Brasil, onde vai certamente continuar a fazer muitos golos.

2007/2008, 724 minutos, 6 golos
2008/2009, 896 minutos, 10 golos

2009/2010, 582 minutos, 7 golos


quarta-feira, 21 de julho de 2010

O que dará Nico Gaitán?


Até ao momento, na preparação da nova época «encarnada», tem sido visível de que forma o substituto de Di Maria pode fazer esquecer a nova contratação do Real Madrid. Não é fácil nem pode ser comparável o momento de adaptação de um e de outro, face ao ponto que Di Maria chegou com 19 anos, e Gaitán chega agora com 21.

Ambos são esquerdinos, mas confesso que na minha análise é esse o único ponto em que ambos podem ser considerados equivalentes. O futebol dos dois difere em tudo o resto. Conhecia Gaitán do Boca mas pouco. Fiquei extremamente agradado com o seu futebol.

Não é um extremo puro, parece-me francamente forte nos movimentos interiores de ruptura, com ou sem bola. Jogador de zona de criação e decisão, exímio nos pormenores técnicos em espaço curto, quer em drible ou em passe em acção de progressão, sem dúvida um jogador com um nível de inteligência muito acima da média e aqui, bem mais preponderante do que Di Maria num sistema mais rígido e menos flexível para as arrancadas do agora jogador do Real.

Di Maria é um jogador explosivo (Gaitán parece-me mais forte na aceleração) mas com uma velocidade de ponta muito superior ao agora reforço do Benfica. Di Maria, num sistema coeso e com poucas alterações estruturais de mobilidade dos seus jogadores, com a excepção do elemento fulcral de todo o processo ofensivo do Benfica - Javier Saviola - a equipa dependeu, sempre, muito da irreverência e da anarquia propositada dos movimentos de Di Maria.

Gaitán vem dar algo diferente. Mais previsível em termos posicionais e de movimentação, muito mais forte em espaços curtos e zonas de pressão mais intensas, sem tanto poder de velocidade no corredor e de desequilíbrio em largura, mas com mais qualidade no último terço e sobretudo maior qualidade de eficácia e eficiência na zona de decisão/finalização.

Tecnicamente parece-me um jogador muito dotado, forte no drible, algo natural nele, e que vai poder desempenhar as funções de 11, 7, 8 e inclusivamente a posição 10. Claramente um acréscimo em termos de eficácia e funcionalidade dentro de vários esquemas e sistemas de jogo.

domingo, 18 de julho de 2010

Martins para Carlos ver...


Quando lia um treinador na semana passada referir-se a vários jogadores como craques apenas do pescoço para baixo e isso os fez passar ao lado de grandes carreiras, recordo-me das imensas vezes que o futebol de Carlos Martins se torna inconsequente pela sua incapacidade de perceber que não se trata de um Zidane do pescoço para baixo, e que tem de o esquecer do pescoço para cima para ser o Carlos, o Carlos Martins, capaz de deixar o outro Carlos, o Queiróz, a fazer muitas contas e com bastantes dores do pescoço para cima para tentar explicar como não apostou neste Carlos... o Martins!

A ascenção da carreira de Carlos Martins dá-se com a sua passagem pelo Huelva e pelo aparecimento de Jorge Jesus na sua carreira. É difícil de compreender alguns jogadores com adornos excessivos e pensamentos incorrectos das suas acções de jogo, que comprometem toda a sua qualidade individual, capaz de empregar bem mais ao jogo colectivo das suas equipas. Carlos Martins é um desses casos.

Arrisco-me a dizer tratar-se de um médio de ligação, de decisão (embora em espaços mais recuados, de construção e exploração dessas zonas em vez da zona de decisão e finalização propriamente dita) de top europeu. Digo-o sem reservas, pois é dos mais fortes nesses espaços, pela inteligência e qualidade de processos, pela irreverência e sentido de agressividade e empenho no seu jogo.

Contudo, não o é, actualmente, de forma clara, até porque nem no Benfica assume estatuto de titular indiscutível, por alguma irregularidade que ainda apresenta, fruto de uma inconsequência por vezes gritante da sua excessiva confiança e desleixos - momentâneos - que apresenta nas suas acções.

É preciso saber lidar com a sua personalidade, com o seu estilo, com a sua imagem. Não tem nada a ver com outro médio português que já aqui falei, também enorme do pescoço para baixo, mas que tarda em dar o salto, e que pode já ser tarde. Falo de Manuel Fernandes. Martins e Fernandes, dois excluídos do Mundial, claramente dos melhores médios portugueses da actualidade, preteridos por jogadores certos, eficazes, trabalhadores e regulares, sem muito do seu talento: Raul Meireles, Ruben Amorim, Pedro Mendes... só para dar alguns exemplos.

Carlos Martins é capaz de carregar a decisão de um jogo às costas, capaz de a colocar na bancada, ou no fundo das redes, também na sala de troféus. É um jogador com um dom natural, por vezes, demasiado desaproveitado para tanto talento que tem. Até porque um dia, pressionado, ou não, pelas circunstâncias, Rui Costa garantiu ser ele o seu sucessor natural.

Talvez Martins apareça como o expoente máximo da nova vaga dos 10 do futebol actual, com o Benfica a ter nos seus quadros dois jogadores capazes de encarnar na perfeição as distâncias entre o romantismo do passado e a tremenda exigência do futuro no que à posição 10 diz respeito: Aimar, o fim dos 10 românticos, e Martins, a nova vaga dos poderosos preenchedores de espaços nas zonas de construção/decisão.

Se Martins continuar a crescer sob o ponto de vista físico e da agressividade e potência da sua condição atlética, aliando a excelente qualidade técnica, de passe e visão de jogo, também muito forte em progressão e no espaço curto, pode ainda dar muitas alegrias na batuta da construção de um futebol ofensivo de primeira água deste Benfica.

sábado, 17 de julho de 2010

Roberto Jiménez, o senhor 8,5 milhões


Esta é uma análise escrita e totalmente pensada imediatamente após o final do Benfica-Groningen relativo ao Torneio de Guimarães. Jogo esse em que Roberto sofreu três remates no alvo convertidos em três golos dos holandeses. Não será um texto de reflexão, mas sim de constatação de alguns factos, sem qualquer tipo de avaliação momentânea.

A entrada de Roberto no Benfica surge como uma lufada de ar fresco no nível de guarda-redes que o Benfica vem apresentando nos últimos largos anos, talvez com excepção de um grande senhor das balizas, honra à sua memória, de nome Robert Enke.

A aposta inequívoca de Jesus na contratação de um verdadeiro nº1, capaz de dar pontos, dentro da dimensão europeia de um Benfica conquistador, agradou a todos. Ninguém esperaria, contudo, a aposta no espanhol Roberto, um guarda-redes vindo do Saragoça, que a nível individual realizou uma excelente temporada.

Primeiro ponto de discussão: avaliação de qualidade do jogador, 6 a 8 meses. Roberto vinha então como dispensado do Atlético de Madrid, onde Sérgio Asenjo, Leo Franco ou mesmo David de Gea eram prioritários em relação a ele, embora reze a lenda que não fosse uma lesão que sofreu na era Abel Resino - que comentou a transferência para a Luz com um irónico "a crise não chegou a Portugal?" - pudesse ter agarrado o lugar nos colchoneros.

Chegado ao Benfica, desde logo o valor de 8,5 milhões de euros espantou tudo e todos. Primeiro por se tratar de um valor quase desconhecido a nível europeu. Depois, pelo montante exorbitante capaz de catapultar a sua transferência para o top 10 das mais caras a nível Mundial no que a guarda-redes diz respeito. Seguindo-se o facto de ser uma incógnita a nível profissional (6 meses a 8 de carreira numa liga de alto nível), concluindo no facto da opção de compra do Saragoça ao Atlético pelo seu passe estar cifrada em cerca de 3 milhões de euros, o que teria então acontecido para o preço que o Benfica se dispôs a pagar ser tão elevado?

Este é um ponto fulcral. Roberto tem todas as condições físicas e atléticas para ser um jogador de referência. Até pode, no futuro, render 20 ou 30 milhões ao Benfica. O cerne da questão prende-se com o montante desajustado que foi pago face ao que era o seu estatuto/rendimento/valor imediato, até pelo mercado pouco alargado que parecia ter.

Começou Roberto a jogar e começaram as desilusões. O jogo com o Sion em que é responsável pelos 2 golos de forma absolutamente incrível, pode ter sido um dia mau pois acontece a todos. Não é justo avaliar e muito menos crucificar por duas falhas em 90 minutos. Muitos menos justo será avaliar a sua prestação no jogo frente ao Groningen que em 3 remates que foram ao alvo, cifraram-se em 3 golos. Ou será justo avaliar pelas grandes penalidades que nem uma adivinhou o seu lado?

Ou como é possível avaliar um guarda-redes nos índices de confiança/segurança/concentração, pois no Saragoça era chamado a intervir constantemente, e no Benfica passam-se largos minutos sem ser chamado a intervir, estando portanto a um nível de performance abaixo do que é naturalmente o seu alto rendimento em termos de ritmo constante?

A questão é: O que esperam os responsáveis do Benfica ou mesmo os seus adeptos do terceiro jogador mais caro da história do clube, e logo um guarda-redes? O senhor das balizas, que viria dar pontos à equipa? A expectativa foi colocada a um ponto totalmente despropositado, quase ao mesmo nível da desconfiança e incerteza rodeada desta transferência.

Fundamental é observar que Roberto não tem responsabilidade directa na maioria dos golos que o Benfica tem sofrido, para os mais justos, enquanto que para os mais detractores, tem sido o grande culpado pelos golos contra os encarnados. E Quim, não era criticado e não foi mandado embora por defender apenas o possível? Por ser incapaz de dar pontos ou defesas impossíveis? Pela sua fraca presença de área?

Tirem as vossas conclusões face a todos estes pontos.

sábado, 3 de julho de 2010

Que se passa Alemanha, alguém falou em nervosismo?


Absolutamente fantástico. Frios, cínicos, eficazes. Estar sentado a ver o Alemanha-Argentina e ver a forma como os alemães escondem as suas ideias, as suas concepções, e sempre que exploram as suas estratégias, fazem estragos, faz-nos pensar na beleza do futebol estratégico e metódico dos treinadores vidrados na organização e no resultado.

Grande capacidade de organização defensiva e estruturação do seu bloco, totalmente intransponível. Tremeram nos minutos finais da primeira parte? Não concordo. Penso que foi um recuo estratégico e claramente à espera de "enervar" e explorar a fraca organização dos argentinos, sobretudo em transição defensiva pela incrível falta de rigor e disciplina táctica de Maradona no seu onze. Onde existia a primeira zona de construção? Em Messi? Como exploravam os argentinos a velocidade e eficácia dos seus homens da frente? Que tipo de organização defensiva e mestria na zona de criação pode existir se nem os próprios jogadores as definiram bem?

A Alemanha baixou o bloco, deu o jogo aos argentinos, e fez aquilo que mais gosta. Qual muro de Berlim, fantásticos sob o ponto de vista da ocupação do espaço e da percepção dos vários momentos do jogo, num 4-2-3-1 totalmente vocacionado para um futebol de basculação e organização, venenoso em transições, onde ganhou realmente o jogo. Schweinsteiger na batuta e a gerir os ritmos, sempre que o seu jogo se encontrava mais pausado e numa fase de organização, Ozil sempre que era necessário esticar e explorar as costas dos argentinos em rápidas transições, Thomas Muller, hoje até nem esteve em grande destaque, mas com as rotações de sempre, ao mais alto nível.

E quem tem um Klose, rápido, veloz, exímio finalizador e com bastante inteligência táctica, aspira claramente a ter a equipa mais forte do Mundial até ao momento. E ainda não falei de Khedira. Que excelente surpresa. Neuer, claramente o nº1 desta prova. Vamos ver a verdadeira final antecipada, entre espanhóis e alemães. O pouco ritmo e a pouca intensidade que os espanhóis parecem apresentar, fazem-me crer que, mais uma vez, os alemães vão triunfar. Até porque Xavi e Iniesta poderão ser facilmente neutralizados, e a Alemanha poderá, ou não, perder essa ligação de criação e transição dos seus pivots. A ver vamos o que nos espera.

E venceu a zona de decisão


Confesso que não me surpreendi pelo resultado, mas estava expectante para observar as naturais dificuldades que os holandeses iriam enfrentar hoje frente ao Brasil. Sempre foi uma velha máxima: se não podes marcar, tenta não sofrer. Se estás por baixo, tenta não descer ainda mais. Até que haja uma mudança.

Como todas estas expressões fazem sentido observando um Holanda-Brasil do Mundial, duas selecções favoritas, longe de ser um jogo empolgante de quem entra na frente nas casas de apostas rumo à vitória neste Mundial.

O Brasil de Dunga apareceu muito equivalente à Selecção Holandesa onde os seus jogadores da zona de decisão parecem ser donos e senhores de uma mecânica bem oleada pelos seus principais jogadores mas com claros défices sobretudo na sua fase defensiva.

Ambos num 4-5-1 em organização defensiva, embora existissem nuances desse sistema passando para um 4-2-3-1 em transição defensiva. Aqui, Van Bommel numa pressão mais subida, também com missões de maior apoio na fase de construção e circulação, exactamente o mesmo do outro lado, desta vez orquestrado por Gilberto Silva ou Felipe Melo, conforme as suas zonas de acção.

Primeira parte, sistemas iguais, formas semelhantes, diferentes nas dinâmicas e posturas. Um Brasil mais mastigado, de maior segurança, maior controlo, claramente surpreendente na forma como conseguiu incorporar Robinho e Dani Alves em zonas de finalização com frequência, o que facilmente poderia ter transformado em golo por mais do que uma ocasião. A Holanda explorando as costas dos brasileiros, numa estratégia mais de contenção com saídas rápidas pelos seus principais elementos (Robben e Van Persie em ataque rápido), apenas faltava a tal mudança, o clique para funcionar: E ele residia na libertação de Sneijder.

O técnico holandês baralhou ao intervalo e conseguiu explorar mais eficientemente o potencial de Sneijder. Foi então que a zona de decisão holandesa fez toda a diferença. Incrível como Sneijder e Robben, na minha opinião, a par de Messi, o top 3 forma/rendimento da época 2009/2010, parecem ser capazes de ganhar jogos sozinhos.

Pela sua mestria e qualidade técnica, irreverência e enorme inteligência de processos, derrotaram um Brasil com muito pouca irreverência no último reduto, talvez sofrendo a perda de Elano mas, claramente, sem o brilho e o virtuosismo de outrora. O futebol e organização defensiva nas diferentes fases de jogo de ambas as selecções pareciam o seu elo mais fraco, claramente do lado brasileiro Michel Bastos e Juan (apesar do grande Mundial) foram muitas vezes alvo de opção prioritária para penetrar, do outro lado, Ooijer e Van der Wiel, sem pedalada para estas andanças.

Ganhou o futebol ofensivo, criativo e irreverente, veloz, essencialmente esta última a chave do encontro. E claro, a posse e a capacidade de penetração de Robben, o que permitiu à Holanda muitos metros conforto pela facilidade que ele tem de explorar zonas fechadas do jogo, permitindo à equipa subir e fechar rapidamente as zonas de cobertura aos seus lances. O Brasil perdeu, aqui, pela forma como se deixou ir na onda, o que libertou Sneijder para começar a aparecer com a sua batuta de ritmos frenéticos, sempre com um vasto leque de recursos para decidir.

Estou bastante expectante para ver o que vai acontecer no Alemanha-Argentina. Por um lado, o cinismo, a organização e a tremenda eficácia dos alemães fazem-me crer que se tornam os principais favoritos. Mas, a relação de amor infinito que os pupilos de Maradona têm pelo seu Deus, fazem-me crer que o jogo e o poder psicológico conseguem ultrapassar todas as barreiras organizacionais e estruturais de uma selecção e jogadores claramente acima nos aspectos tácticos e posicionais do jogo. Excelente duelo, futebol total vs. futebol eficaz. Quem sairá vencedor?

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Que confusão Mister...


Os portugueses têm o dom de esquecer rápido, viver depressa, e avaliar tudo pelos momentos. Hoje, todos querem ver Queiroz pelas costas. Algum dia, mostrou, ser seleccionador à altura de representar todos os portugueses e colocar a selecção - ou mantê-la - no ponto em que tem todas as condições para lá estar? Estamos a falar da 3ª classificada do ranking Fifa que sai deste Mundial desta forma triste e desrespeitosa para com o seu habitual bom futebol e bons executantes.

Agora é fácil falar e fazer conjecturas face ao que de errado correu, mas vamos por pontos. Como é possível alguém entender que o menino mimado e irresponsável Cristiano Ronaldo tem perfil de capitão? Eu até defendo a escolha no timming em que foi, pois nós nunca sabemos que tipo de postura e respeito existe entre ele e os restantes colegas. Hoje viu-se, é nula. Ronaldo como líder e como "voz de comando", simplesmente, não existe. Portugal nunca teve um líder. Nem no banco, nem dentro de campo. Porque não atribuir a braçadeira a Ricardo Carvalho ou a Bruno Alves? Ou mesmo ao próprio Simão?

A confusão de sistemas e de formas de jogar deixaram-me, também, bastante confuso. Como pode Queiroz ter explorado ao longo da fase de qualificação um sistema sem alas, com grande preponderância de futebol pelo corredor central, quando o melhor e mais consagrado ADN de jogador português é o extremo rápido, irreverente, técnicista e desequilibrador?

Portugal até chegou ao Mundial, ainda a perguntar-se como, e enfrentou uma Costa do Marfim onde fez um jogo muito aquém das expectativas, e que não é uma goleada frente a uma fragilizada Coreia que apaga a má imagem deixada, sobretudo ao nível de processos e metodologias de jogo. Pois a qualidade está lá, mas se ela não for guiada... dificilmente se retira algo do potencial dos jogadores.

Outro aspecto: Ronaldo não bateu os pontapés de baliza porquê? A selecção foi para o Mundial para o menino mimado e birrento brilhar e fazer coisas boas, aparecer nas revistas, ser capa de jornal, ou para juntos, enquanto grupo, revelarem toda a sua qualidade e vontade de cumprimento de objectivos?

Queiroz foi muito forte numa coisa: a união de grupo. Soube juntar todos os atletas e criar um espírito muito forte entre eles. Agora, a relação com o técnico? O acreditar nas suas opções? O respeito e o sentido de liderança que um treinador tem de colocar, sempre, em qualquer grupo?

Portugal tem de mudar rapidamente. A começar, pelo Seleccionador. A terminar, nas ideias e nas concepções. Somos realistas, ou pelo menos temos de o ser. A equipa das quinas vai enfrentar um período de alguns anos de grande dificuldade. As últimas gerações são fracas e sem talento para aspirar a seleccionáveis. É dar oportunidade a alguns nomes de cimentarem o seu lugar e criarem bases sustentadas para um futuro que tem de ser melhor do que este.

Nomes a reter: Eduardo, Raul Meireles, Hugo Almeida, Fábio Coentrão, Cristiano Ronaldo, Nani, Varela, Ruben Micael, Manuel Fernandes, Miguel Veloso, Bosingwa, Ruben Amorim, Danny e Vieirinha... poderá ser por aqui.

Coentrão fundamental


Pela primeira vez, vejo um jogador colocar a possibilidade de poder sair do Benfica e gostar das suas declarações. Ao contrário de outros (ex: Di Maria e Luisão), Fábio Coentrão mostrou respeito pelo clube e bastante interesse e paixão em vestir aquela camisola.

«Quero aproveitar bem as férias e depois vou apresentar-me no Benfica. Tenho contrato até 2015. Não sei se há clubes a querer pagar os 30 milhões da cláusula, mas acredito que, se o fizerem, será bom para o Benfica. E se for bom para o Benfica, será bom para mim», notou, transparecendo um misto de sentimentos: «Estou num grande clube e é um sonho representar o Benfica, mas os jogadores sonham sempre com patamares mais altos».

Entretanto, para quem duvidava, 25 milhões por Di Maria. Sendo que só entram nos cofres da Luz 17,5 milhões de €, resultantes dos 70% que o Benfica detinha. Se duvidas houvessem...