domingo, 20 de junho de 2010

Quaresma à CR7


Numa altura que as conversas do mercado se fazem em volta da irrealidade - expressa no meu anterior post - com que se coloca o valor de transferência dos principais jogadores do Benfica, eis que um português dá um pontapé na monotonia e espanta tudo e todos com a sua capacidade de mobilizar ao estádio da sua nova equipa mais de 20 mil adeptos para o receber.

Ricardo Quaresma foi apresentado como novo jogador do Besiktas e parece que foi amor à primeira vista. Lembro-me de ter várias conversas comparando Quaresma e Di Maria e a minha opinião mantém-se a mesma: o cigano é mais e melhor jogador do que Di Maria. E nem é pelas fracas exibições que o argentino vem fazendo no Mundial, é, sobretudo, pela sua irregularidade e pouca preponderância na zona de decisão o que num colosso (tal como sofreu na pele Quaresma) faz toda a diferença.

Jogando num ambiente completamente favorável a si próprio, Quaresma vai assumir papel principal numa equipa, como tão bem ele gosta. Sempre fui adepto do seu futebol, penso inclusivamente ser o jogador português em actividade com maior talento, muitas das vezes desperdiçado pela sua pouca entrega e pouca vontade de trabalhar, relacionando com a ambição que pouco revela e um comodismo com um estrelato aquém do que poderia atingir que está claramente a cortar o seu desenvolvimento como grande jogador de futebol que é.

Com Nihat, Nobre e Bobô para servir, acompanhado pela criatividade de Matias Delgado e pela segurança de Ernst, estes turcos parecem-me um outsider muito interessante na próxima janela competitiva europeia.


quarta-feira, 2 de junho de 2010

Do inferno (visual) à ilusão num ápice


Tenho assistido com tranquilidade e com muita ironia aos desenvolvimentos (quais?) relativamente ao mercado de transferências no que ao Sport Lisboa e Benfica diz respeito. Os adeptos do Benfica, muitos deles sem estarem já habituados às conquistas, e pensando que a grandeza do Benfica se compara com a de outros clubes nacionais, vaticinaram durante semanas atrás de semanas uma limpeza geral dos "colossos" ao plantel campeão nacional, que fez uma boa campanha na Europa, mas nada ao nível de valorização a que já assistimos todos outra equipa em Portugal fazer.

E é aqui que pego o primeiro ponto. Como é possível falar-se em valores a rondar os 30 milhões de euros por jogadores como o Óscar Cardozo, Ramires, ou Fábio Coentrão. 40 milhões - e para cima - custariam o passe de David Luiz e Di Maria. Mas está tudo louco??

Primeiro ponto. É fundamental os benfiquistas pensarem que o Benfica já vendeu algumas fatias do bolo relativamente aos passes dos seus principais jogadores com a entrada das "estrelas" no Benfica Stars Found. Logo, caso hipoteticamente o Di Maria saia por 40 milhões, o Benfica terá direito a qualquer coisa como 30 e poucos milhões.

Indo agora ponto por ponto:

Di Maria - É, sem dúvida, o jogador mais valorizado do Benfica. Fez uma excelente época (a primeira como Sénior), cheia de brilhantismo e irreverência. Continua a ser titular indiscutível e uma das principais estrelas da selecção argentina. É, de longe, um jogador com mercado e muito potencial. Contudo, continuo a apontar-lhe a mesma irregularidade e ineficácia na zona de decisão, ao contrário do que pensa o grande Mister. Di Maria é um jogador extremamente veloz, com grande capacidade de drible e improvisação em espaços curtos ou em lances de transições. Contudo, a inteligência e eficiência aprimoram-se, de facto, mas ou nasceram connosco, ou dificilmente as encontraremos. E Di Maria não me parece jogador para um colosso Mundial. Ah, e mais ridículo ainda é compará-lo a Robben. O holandês, para mim, um dos melhores do Mundo, com a idade deste, já jogava de 3 em 3 dias contra os melhores do Mundo. E não contra os Paços e Navais desta vida. Daí, e olhando para o mercado, 30 a 35 milhões é o que se pode oferecer por ele. Por mim, pode sair.

Fábio Coentrão - Mourinho foi claro. Contratar Coentrão para quê, se já tem um Marcelo e um Drenthe? São jogadores em tudo equivalentes ao Fábio, e eu que sou um grande fã dele. São maus defensivamente? Mas em que contextos, em que ambientes, e contra que adversários? Já teve Coentrão testes sistemáticos exigentes às suas capacidades como defesa lateral esquerdo? Marcelo e Drenthe, no ano passado no Benfica, seriam duas figuras colossais na nova época. Não tenho dúvidas. Coentrão é para manter, sem dúvida.

David Luiz - Um dos melhores defesas centrais do Mundo da actualidade. Aqui, sou totalmente a favor da opinião da generalidade das pessoas. Tem todas as condições para ser um jogador fabuloso, sobretudo pelos argumentos técnicos que apresenta, o que o torna num central moderno, claramente adaptado às circunstâncias de futebol de topo que se joga nos grandes clubes europeus. Os defesas centrais do futuro são os principais desequilibradores das equipas, pois criam situações de superioridade numérica e jogam num centro de pressão baixo o que lhes permite pensar e executar com maior tempo/eficácia. Para mim, é fundamental mantê-lo. Mas 50 milhões??? Pepe saiu do FC Porto por 30 milhões, Carvalho campeão europeu saiu por 30 milhões e para um clube então milionário... têm noção do que significa 30 milhões num mercado actual? É quase o mesmo que se dá por um avançado que faz golos jogos e jogos. E tem cotações totalmente diferentes dos defesas em termos de mercado.

Ramires - É o que dá menos nas vistas, tal e qual como dentro de campo. Para mim, o mais essencial de se manter. Fabuloso no preenchimento de espaços e no rigor táctico que oferece à equipa. Também com bola muito forte em penetração e progressão. 30 milhões? Mais uma vez, só por quem não tem noção dos valores de mercado, sobretudo por jogadores assim. Ramires é fantástico. Mas não brilha, não faz golos, não faz fintas bonitas, não vende camisolas, não é irreverente nem aparece nas revistas cor de rosa. É para manter no Benfica, primordial. Mas tenham noção do preço e do valor de mercado que protagoniza.

Oscar Cardozo - Fala-se em 25 milhões, 30 milhões? Então vendam-no na hora. Cardozo é um jogador com 27 anos, sem valor de mercado por uma só razão. Não é rápido, aparenta pouca técnica, pouco mexido, pouco brilhantismo, fraco no um contra um, fraco em transição. É um jogador usado única e exclusivamente para o ataque organizado. E mesmo aí, peca em algumas situações. Logo por esse ponto, perde 5 a 10 milhões de valor de mercado. Por alguma razão Jardel, amplamente mais jogador e com melhores recursos técnicos do que o paraguaio, não passou do Galatasaray. Jogadores de ataque organizado e apenas de zona de finalização, a não ser que tenham 2 metros e uma mestria posicional soberba (tal como Luca Toni), nunca passarão de Kollers, Cardozos, Jardeis... e valerão 10/15 milhões. Até porque Cardozo no Paraguai é 3ª ou 4ª opção. Sim, Santa Cruz, Nelson Valdez e sobretudo Lucas Barrios, prometem dar pouco tempo de jogo ao nosso Tacuara no Mundial. Para mim, e a julgar pelas suas declarações, pode sair.

Essencial sim é manter Maxi Pereira, David Luiz, Luisão, Javi Garcia e Saviola. Ramires, Amorim e Coentrão. Essa é a base da estrutura campeã e a base estrutural de um Benfica à Benfica, conquistador, de valores, de raça, de ambição, sobretudo... de paixão pelo clube!

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Como José vai ganhar a Champions


Estou a escrever este texto dia 21 de Maio, um dia antes de José Mourinho e o seu Inter se sagrarem campeões europeus. Não pela grande equipa e pela espectacularidade do seu futebol - que fica a alguma distância da equipa do Bayern Munique - mas sim por tudo aquilo que faz de Mourinho o melhor do Mundo, e que nem Van Gaal, que o conhece tão bem, tem conseguido entender.

A forma como a equipa do Inter se sagrou campeã na última jornada do campeonato italiano e a reacção de Mourinho ao sucedido fez ver a todos os amantes das loucuras do génio português que algo estava ele a preparar por detrás da expressão sobranceira e fria que denotou assim que o árbitro italiano apitou para o fim da partida.

A mensagem foi clara: "Para a semana temos uma competição para ganhar, não vou festejar e desviar atenções do nosso principal objectivo". Os jogadores foram os primeiros a entende-la e certamente que esta semana encararam com a máxima intensidade e obrigatoriedade competitiva. Certamente que Mourinho já deve ter dito para um dos seus fiéis escudeiros que compõe a sua equipa técnica: "Estes tipos estão no máximo, todos querem jogar!". Já o tinha dito em Sevilha, num Celtic-Porto, final da Uefa.

A forma de encarar a pressão e a exposição mediática de uma final europeia são um pré-match essencial na preparação e estruturação não só de abordagem ao jogo em termos tácticos, estratégicos, e tudo o que advém dos comportamentos utilizados em jogo da parte de uma equipa, mas sobretudo no campo psicológico e motivacional, cada vez mais essencial hoje em dia.

A um dia da final da competição, e com uma semana passada, não se vê um único comentário ao jogo. Uma única palavra em relação a jogadores do Inter, a sistemas, a onzes, a estratégias. Toda as pessoas falam numa só coisa: Mourinho vai para o Real. E foi a forma que o técnico português encontrou de dispersar atenções, chamar para si os holofotes, e libertar os seus jogadores de um dos momentos mais tensos da sua vida desportiva.

Mourinho não faz as coisas por acaso. Seria um rude golpe para o seu grupo, o seu plantel, a sua equipa, saber que num dia em que todos têm de estar unidos e fortes para ultrapassar as adversidades, o seu líder ameaça sair e expressa-o claramente. Estratégico. Está a usar, mais uma vez, a Comunicação Social e o seu poder em seu proveito.

Eu digo-o sinceramente. Vão jogar os dois melhores jogadores do ano de 2009/2010 em termos de rendimento. Tirando Messi que é extra-terrestre. Wesley Sneijder e Arjen Robben. E será uma extraordinária final. Mas, Mourinho vencerá. Sim, Mourinho! E no final, chegará ao pé dos jornalistas e exclamará bem alto: "Já ganhei tudo o que tinha para ganhar em Itália. Vou sair!". À campeão!

quarta-feira, 28 de abril de 2010

O livro Mourinho


É certo que o pré-sucesso do Inter de Milão nesta temporada se deve a um nome: Wesley Sneijder. Também é uma realidade que Eto'o tem feito esquecer Zlatan Ibrahimovic, ou que Lúcio deu uma segurança e liderança defensiva que não existia. Mas hoje, e também na primeira mão, há um nome incontornável a vencer o jogo do Nou Camp: Claro, o special one!

Todos erram. Mas ele, acerta muito mais vezes do que os outros. A forma como abordou a estratégia para os dois encontros e, essencialmente, as noções de espaço e de leitura dos variados momentos do jogo que enfrentaram e a adaptação simples e lógica a todos esses factores, fazem-me pensar de que forma Mourinho fez a antevisão destes dois jogos: Terá treinado todas as condicionantes possíveis e imaginárias que poderiam acontecer neste jogo?

Tal como referiu, e tocou num ponto fundamental, estes jogadores estão, a um nível de idade, no auge dos seus momentos áureos no futebol. Mourinho tem uma equipa adulta, rotinada, coesa, muito inteligente, capaz de compreender os delírios - fantásticos - do seu maestro. Mourinho fez do Inter, uma equipa desapaixonada pelo jogo e sem a criatividade dos fantasistas, um grupo metódico, tremendamente eficaz, e com as peças que ele encontrou para compor o seu puzzle. Milito, Eto'o, Lúcio, Sneijder, são os exemplos mais crassos. Está longe Mourinho de ter os fantasistas da bola, mas muito perto de atingir o expoente máximo dos fantasistas do futebol. E são coisas diferentes. Estes últimos, os instintivamente magos dos espaços, das movimentações, dos momentos, das vivências, das rotinas, dos processos... Uma equipa desenhada por Mourinho.

E como dizia Jesus, enquanto o futebol não for um desporto de nota artística, será totalmente plausível que Eto'o volte a fechar como lateral esquerdo a funcionar como primeiro elemento de transição ofensiva (que raramente existiu), ou Zanetti e Cambiasso a fazer de tampões única e exclusivamente das triângulações ofensivas dos catalães. Mourinho, a jogar com 10, fechou um bloco de 5-3-1, a desdobrar-se num 4-4-1, que em organização defensiva mais se assemelhava a um 6-2-1. Foi, do ponto de vista táctico, estratégico e organizacional, um dos melhores jogos que me lembro de ter assistido no futebol. Tudo bem que fez um remate ao longo do jogo e teve 26% de posse de bola.

Quando o árbitro apitou, correu fulgurante, festejou exuberantemente, abraçou os seus heróis, que também o acham a si um dos seus... e ele foi esse, o do jogo feio, do autocarro, da retranca... eu chamo-lhe mestria: José Mourinho, abriu o livro! E fechou-o, imediatamente, para o Bernabéu.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

A gestão Benfica 2010/2011



Já entrámos, à muito, na fase de todas as decisões. É inegável que o Benfica, com maior ou menor dificuldade, se irá sagrar campeão nacional pela 32ª vez na sua gloriosa história. Um título muito saboroso pela forma como foi conseguido, inteiramente justo pela superioridade demonstrada perante os adversários e mais vivido ainda pela campanha despropositada que foi feita praticamente semanalmente pelos "outros", com o receio e a estupefacção de ver o monstro acordar.

Contudo, é desde o mês de Dezembro que o Benfica, Jesus, e seus pares, preparam a próxima temporada. Contratados, para a próxima época, e apostas de futuro, estão Franco Jara e Fábio Faria. Em relação ao avançado argentino, parece-me uma das melhores apostas que o Benfica poderia fazer na Argentina. É um jogador - e que já aqui manifestei a minha opinião várias vezes -, diga-mos, fantástico. Tem todas as condições para escrever uma página de muitos sucessos de águia ao peito. Fábio Faria, até porque o conheço bem, não me parece minimamente capaz de entrar de caras neste Benfica, a não ser que venha como "reserva" para a lateral esquerda da defesa. Vamos ver.

Em relação a saídas, e esse sim, o tema mais preocupante, eu não encaro as coisas da mesma forma que a maioria dos benfiquistas. Gastam imensas horas a pensar em saídas, em valores, em negócios, mas muitos esquecem-se que o poder negocial e histórico de um clube como o Benfica, não se assemelha a um Porto ou a um Sporting que anualmente vêm sair as suas principais peças em caso de sucesso.

Parece-me natural que no final desta época o Benfica irá ver sair Di Maria (e nem me preocupa assim tanto), e possivelmente um outro jogador. A dúvida padece na vontade de David Luiz rumar para outras paragens. Acho que tinha todas as condições para o Benfica renovar-lhe o contrato por mais 5 ou 6 épocas, a ganhar muito mais do que agora, e fazer uma carreira brilhante no Benfica. Porque jogadores destes, com ligação e carisma com os adeptos, não aparecem sempre.

Para sair, eu apontaria alguns nomes: Quim, ou titular ou nada. E parece-me que o Benfica precisa de assegurar um grande nome para a baliza. E já não é sem tempo...; Luis Filipe, Jorge Ribeiro e Éder Luiz (empréstimo), para mim, teriam e deveriam ter nesta altura os dias contados. Éder Luiz ainda acredito que mostrará bem mais do que o que tem feito. Dêem tempo ao tempo e adaptação a jogar com regularidade.

Para reforçar a equipa, Jara e Faria estão certos, seria necessário um guarda-redes de topo, e aqui apontaria o nome de Marchetti ou Victor, um lateral esquerdo e falo no nome de Ramon, novamente, um Médio Interior e aponto o nome de Colman, o regresso de Urreta, e não seria necessário mais, a não ser que... Simão ou Miccoli pudessem entrar nas cogitações.

Estou expectante!

segunda-feira, 19 de abril de 2010

O melhor do Mundo 2



Andrés Iniesta garantiu, desde o momento que começou a entrar na equipa principal do Barcelona, uma dimensão extra ao futebol dos catalães e a alguns dos seus companheiros. Quando hoje os especialistas referem que Xavi e Iniesta são como dois irmãos gémeos que nasceram para jogar juntos, a verdade é que só depois de Iniesta aparecer é que Xavi ganhou outra dimensão no seu futebol e se tornou no jogador que é hoje.

Iniesta e a sua qualidade em posse de bola, a espantosa mestria técnica e inteligência de processos, traduzem-no num dos melhores executantes do Mundo, um verdadeiro génio ao serviço do colectivo capaz de desmanchar com os seus pormenores técnicos qualquer organização defensiva e zona de pressão dos adversários. É um 8 de penetração e ruptura, talvez, o único que escolheria para montar uma equipa à sua volta.

terça-feira, 13 de abril de 2010

O melhor do Mundo

Peço desde já desculpa aos habituais leitores pela pouca actualização de conteúdos mas derivado a imensas mudanças a nível profissional/pessoal tem-me sido impossível ter tempo para actualizar este espaço. Contudo, hoje encontrei, finalmente, destaque para os menos visíveis, os que não brilham a nível planetário, os que não usufruem do drible como uma necessidade, aos que se escondem no sucesso dos outros, aos que trabalham arduamente para os outros... o melhor do Mundo, a par de Iniesta.


segunda-feira, 22 de março de 2010

Thierry Henry, o melhor da década versão 2

Tinha escrito neste espaço aquando do final do ano de 2009 que Henry era, para mim, o melhor jogador da década e hoje, tal como eu, muitos outros adeptos do futebol do internacional gaulês, tiveram razões para sorrir e ver esse pensamento dignificado.

Quando questionado pelos jornalistas se iria festejar caso marcasse ao Arsenal, no embate entre os dois colossos europeus para a Liga dos Campeões, a resposta do jogador do Barcelona foi sintomática: "Festejar? Não me imagino no Emirates com outra camisola que não a do Arsenal. É tão simples como isto, não quero jogar esse jogo."

Este sim, é o futebol dos valores, das tradições, da magia... num gesto só. Henry, o melhor da década:


quarta-feira, 17 de março de 2010

Maturação vs. Talento precoce


Tem sido usual nos últimos dias na minha área de estudo surgirem questões de discussão sobre a maturação e o desenvolvimento sustentado dos jovens face a contextos que os rodeiam e que influenciam de forma significativa e decisiva o seu rendimento quer cognitivo, motor ou psico-social. Muito se vem falando de "queimar etapas" e do contra-senso que isso vem sendo mas, eu, pelo contrário, entendo que essa é apenas uma questão efémera que será sempre guiada para um trajecto social e afectivo que influenciará o rendimento propriamente dito em termos desportivos.

Isto porque um grande jogador precocemente terá, até pelas exigências que ele próprio vai procurando, de saltar certas etapas e conhecer ritmos e desafios diferentes para ter estímulos e obrigações mais exigentes que lhe permitam ter uma maturação mais adequada à qualidade de rendimento que terá de apresentar. Ou seja, o jovem de 8 anos, muito forte tecnicamente, pelo menos mais capaz do que todos os outros da sua idade, terá obrigatoriamente de passar para a etapa seguinte (jogar contra meninos que lhe coloquem dificuldades diferentes, logicamente maiores) de forma a não se correr o risco do menino virtuoso sentir demasiadas facilidades com os seus e descurar certo tipo de intensidades e gestos técnicos que terá sempre de trabalhar e que contra os da sua idade (num nível bastante mais baixo que o dele), bastará o "meter a bola para a frente" e correr ou o simular que chuta para cortar para dentro. São necessárias exigências e intensidades adequadas àquilo que são os estímulos que as crianças procuram face ao seu rendimento.



Enquadrando o meu texto de hoje nesta matéria de reflexão, proponho-me a falar de dois nomes: Miralem Pjanic e Neymar. Quero com isto dizer que os dois, enquadrados numa avaliação de talento precoce, demonstram em idade de maturação rendimentos díspares face às perspectivas criadas sobre eles ainda em idade de desenvolvimento e formação. Pegando na frase de José Mourinho, "Um treinador que só percebe de futebol, de futebol nada sabe", é essencial existir um acompanhamento permanente e uma modelagem de comportamento fundamental da parte daqueles que são os modelos estruturais do comportamento dos jovens: as figuras do poder e, essa figura, no contexto do futebol, será sempre o treinador.

Miralem Pjanic chegou muito cedo a França, nasceu num contexto de guerra (Bósnia Herzegovina) e teve, certamente, um tipo de acompanhamento psicológico diferente daquele que foi dado à grande maioria dos jogadores das camadas jovens do Metz e Lyon. Hoje em dia olhamos para um jogador a quem desde cedo foram reconhecidas capacidades muito acima da média, claramente evoluído sob o ponto de vista da própria inteligência e maturidade que apresenta em todos as suas acções no jogo, na vida, e no contexto de desenvolvimento enquanto futebolista profissional de alto nível.

Neymar, que muito jovem viu os holofotes da fama apontarem-se efervescentemente para si, tem aparecido de forma sustentada no Santos onde assume papel de destaque, mas muitas têm sido as notícias que têm saído a público sob a sua conduta fora dos relvados e muito se vem questionando o facto de ainda não ter dado o salto qualitativo que se esperava dele quando tem já 18 anos - e eram apontadas qualidades claramente ao nível dos predestinados para ele -, tal como, aliás, sempre o reconheci.



Acontece que, num básico exercício que vise compreender a capacidade mental, que se reflecte em campo e origina determinados comportamentos, face a acontecimentos que vão surgindo, porque Neymar - o melhor goleador até então - fez apenas dois golos desde que Robinho está de regresso ao Vila Belmiro?

Porque tem Neymar mantido um comportamento, nem sempre humilde, perante as suas exibições? Ao perder uma bola frente ao Palmeiras, faz uma entrada despropositada e recebeu ordem de expulsão. Insultou o árbitro, fala-se em 18 jogos de suspensão. Numa altura tão fundamental da carreira, Neymar vai sendo falado, e muito, é verdade, mas nem sempre pelos melhores motivos e a um nível que já se esperava que ele tivesse ultrapassado até para a própria imprensa.

Quanto a Pjanic, surge como uma das principais figuras do Lyon e da selecção da Bósnia, embora em ambas não seja ainda um titular indiscutível. Acontece que suportando esse factor emocional, sempre que é chamado, corresponde com boas exibições. Veja-se, até ao momento, nos seus maiores níveis de obrigatoriedade e exigências, a forma como correspondeu: Carregou a Bósnia às costas frente a Portugal na Luz e em Sarajevo. Foi peça de xadrez fundamental na forma como o Lyon eliminou, recentemente, o Real Madrid num Bernabéu desesperado por uma vitória na Liga Milionária.



É importante referir a necessidade de se potenciar ao máximo a capacidade dos atletas. O talento natural que detém, contudo, é uma ínfima parte daquilo que necessitarão para consolidar o seu rendimento no topo - de resto, tenho escrito ao longo deste blog vários exemplos disso mesmo. Pjanic é, hoje em dia, um jogador totalmente completo sob o ponto de vista da maturidade vs. talento.

Neymar, apesar de, talvez, ser o mais talentoso jogador mundial da sua idade, denota ainda índices de maturidade nas suas acções técnicas, psicológicas e sociais, completamente distintas da linha orientadora certa, se assim se pode delinear. Será sempre um caminho doloroso. E terminando com uma frase que visa fazer uma retrospectiva a tudo o que tem sido feito ao nível do futebol de formação por alguns técnicos formadores:

"O bom treinador é aquele que prescinde dos resultados competitivos sob a necessidade de trabalhar e formar os seus atletas com a finalidade de vir a colher todos esses frutos anos mais tarde". Para recordar...

Possível receita para Marselha


Numa antevisão ao, certo, inferno de Marselha, não será um jogo de vida ou de morte. A equipa do Benfica não vai entrar em campo com a necessidade de salvar a época ou ter receitas - porque nem são nada por aí além - para cobrir gastos. Será apenas mais um jogo, embora com importância grande, o que por si só, retira qualquer pressão excessiva à equipa.

O Benfica vai encarar um jogo em Marselha de grande pressão psicológica e emocional, pelo que será necessário a equipa encarar de forma muito adulta todos os possíveis momentos que o jogo possa trazer. É bom que estejam avisados e preparados para o inferno que os esperarão, porque numa segunda parte da eliminatória, dar os primeiros minutos de avanço ao adversário por se acusar em demasia a pressão pode ser fatal.

O Marselha parte em vantagem mas nunca o Velodrome perdoaria aos franceses jogarem perante o seu público numa contenda de contra-ataque. Jogará sim uma equipa metódica, com astucia e, certamente, inteligente nos seus processos. Deschamps irá, provavelmente, ordenar para baixar um pouco o bloco e explorar momentos de transição rápida na fase ofensiva do seu jogo. Quer pelos corredores laterais defensivos (Taiwo sobretudo), quer pela velocidade e espontaneidade dos seus criativos das alas, Ben Arfa, Koné ou Niang. A possível opção de Brandão no flanco não me parece que se venha a concretizar pois o Marselha não será neste jogo um quebrador de espaços - como foi na Luz - para passar a ser uma equipa confortável e direccionada para decidir no próprio espaço que procurará certamente criar.

Dessa forma parece-me necessário que o Benfica encare o jogo numa postura de contenção inicial (para amenizar o ambiente e estudar a forma como os franceses encararão o jogo) e procurar com o decorrer dos minutos ir à procura do jogo. Parece-me essencial que Jesus adopte uma nuance táctica passando do 4-1-3-2 em organização ofensiva para um 4-5-1em processo ofensivo desdobrando-se num 4-1-2-1-2 na fase ofensiva do seu jogo. Isto porque será importante fechar as alas e ter um meio-campo mais pressionante (com Javi, Ramires e Amorim) de forma a evitar tomadas de decisão com tempo e espaço onde certamente os marselheses procurarão rápidas transições nos corredores (daí a necessidade de cobrir o espaço lateral) e eliminar as zonas de criação que se encarregarão certamente jogadores como Lucho González e Cheyrou.

Muito superficialmente, seria este o meu Benfica para Marselha: Júlio César, Maxi Pereira, David Luiz, Luisão e Fábio Coentrão; Javi Garcia na posição 6, Ramires como Interior Direito, Ruben Amorim como Interior Esquerdo, Di Maria a partir de uma posição mais central para movimentos de rotura nos flancos, Saviola vagabundo na frente de ataque à procura dos espaços de Cardozo (e aqui permitam-se a ousadia, ou Weldon/Kardec). E já agora, permitam-me novamente, quem me dera já ter Franco Jara para atacar esta segunda mão em França.

Força Benfica!

Para rir...

Já que tanto falam na mão de Vata, eu estou-me bem a lixar para se jogamos bem, se jogamos mal, se somos massacrados, se o golo é apenas um ou existirão vários. Eu quero é ganhar. Nem que seja assim:

quarta-feira, 10 de março de 2010

Um peixe fora de água com saudades do passado?


Hoje foi uma noite diferente. Não que estivesse à espera de algo semelhante, mas sim pela constatação de vários factores que fazem qualquer apaixonado do futebol, o verdadeiro futebol, sorrirem e pensarem que a essência do jogo ainda pode ser recuperada. Estou a assistir à Liga dos Campeões, a competição milionária que não significa dinheiro = sucesso, embora a UEFA continue a ter muitas políticas que nos fazem pensar, afinal, quem controla o jogo - veja-se a forma como o Chelsea é completamente roubado na meia-final do ano passado sob a necessidade de colocar frente a frente Messi e Ronaldo.

Hoje, embora não me tenha surpreendido, assisti a uma coisa que agradou a todos os amantes do futebol verdadeiro, jogado pelo jogo, pela tradição (já que o meu vídeo da semana apela a tal facto), pelo amor às cores e à glória conquistada pelo mérito das suas raízes.

O Real Madrid foi eliminado frente a um Lyon que lhe concedeu meia parte de avanço e que pode-se dar por satisfeito pela forma irrisória como os blancos foram falhando golos atrás de golos e aniquilando as suas hipóteses de resolver uma eliminatória que se viraria contra eles. Pellegrini não acertou, manteve a sua postura metódica e conformista, Puel veio para cima, subiu o bloco, deu a batuta a um jogador que há muito me enche o olho, e ainda o conheci nas camadas jovens do Lyon, falo de Pjanic, teve um exterminador de defesas na frente de ataque em grande forma (é incrível a forma como faz movimentos de rotura atrás dessas próprias situações e se converte no primeiro ele defensivo da transição da sua equipa), sendo que Lisandro assume neste Lyon as nuances fundamentais do processo quer ofensivo quer sobretudo de recuperação defensiva da equipa. Se ele pressiona alto, o bloco sobe, as linhas ficam coesas, o que trás por vezes dificuldade aos franceses pela falta de rapidez e lucidez de alguns elementos mais experientes da sua defesa, refiro-me a Cris, por exemplo. Contudo, hoje resultou em pleno e o Lyon saiu de Madrid com a vitória (na eliminatória).

Fiquei os últimos 15 minutos à procura de Ronaldo. A tentar descobrir em si um ponto de alegria, um ponto de entusiasmo, de satisfação ou mesmo concretização. Tudo isso desapareceu nele. Mas vejamos. Mudei de canal. Vi um Manchester United a "dar" 3 ao Milan, e os adeptos a descerem lençóis das bancadas bem expressivos: "AMO-TE UNITED, ODEIO-TE GLAZER" em referência ao milionário americano proprietário do clube. E isto faz-me regressar atrás e ver a forma como os manifestantes (é desfasado usar esta palavra, corrijo-me a mim próprio escrevendo ADEPTOS) queriam impedir a sua entrada no clube, formaram um novo United, muitos deles deixaram de compactuar com a estratégia comercial adoptada pelo clube, hoje em dia fazem-se ver nos estádios por onde jogam os red devils com cachecóis verdes e amarelos, em homenagem às cores do clube que originou a fundação do Manchester United. É, de facto, um mundo à parte, de paixão, fervorosos adeptos, glória e triunfos.

E eu estava a pensar: Estão os adeptos do Manchester em protesto porque entendem que os valores do clube não estão a ser prestigiados nem protegidos, mesmo que no meio de tantas categóricas vitórias. Voltei a mudar de canal, e pensei: Os 250 milhões que Florentino gastou, e os salários exorbitantes - e já agora, perfis e estatutos dos intocáveis de Madrid - que a muitos deles não lhes permitem serem substituídos mesmo que a jogar dentro do seu metro quadrado, irão os super craques para casa arranjarem-se para saírem à discoteca mais próxima para desfilarem esta madrugada, os seus fãs estarão amanhã à porta do campo de treinos para pedir autógrafos e fotografias com as lendas (de quê?) que vestem as cores blancas, e nada se passa.

É este o futebol que Ronaldo (o peixe fora de água) prefere? Fica a questão.