Mostrar mensagens com a etiqueta Artigos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Artigos. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

O triângulo do centro de jogo: Versão sucesso

Quem leu o post anterior sobre a primeira parte do Benfica na Madeira percebeu que houve um conjunto de erros de entendimento do jogo da parte dos jogadores do Benfica. Uma questão de não cumprir princípios e de um momento de jogo (organização ofensiva) totalmente fora do contexto que o Benfica tem habituado quem os assiste. Muitas pessoas podem ter-se perguntado do porquê da necessidade de certos jogadores terem de cumprir determinados procedimentos ou posicionarem-se noutros espaços. Hoje, numa óptica semelhante, e em versão sucesso, analisamos o golo do Barcelona.

Sou adepto do futebol que Tata Martino. Já no Newell's tinha uma proposta de jogo muito interessante face à realidade que costuma ser possível ver na Argentina. Hoje vimos um Barcelona em alguns momentos de jogo procurar acelerar o seu ataque posicional como não fazia de forma regular. Mas centremos-nos no golo.


Fabregas é quem define o início do lance. Em poucos segundos a equipa acaba por fazer golo, mas tudo começa aqui. O centro de jogo está bem definido, com o triângulo evidente. Duas coberturas ofensivas ou apoios, e fora do centro de jogo, jogadores a garantir largura e possíveis movimentos de ruptura para o sucesso da circulação. Esta imagem em que o Atlético se posiciona com uma linha bem definida em termos defensivos não é muito diferente do que fez o Marítimo. A diferença está em quem ataca.


Xavi recebeu o passe. Fabregas prepara-se para dar nova dimensão ao centro de jogo da equipa porque o passe de Xavi vai para o lado direito onde um elemento garante a largura. O jogador que se encontra à direita da imagem é também importante, para impedir o encurtamento do espaço por parte do Atlético.


O lateral do Barcelona recebeu a bola. Há um espaço aberto neste lance porque o Atlético saiu com 2 jogadores ao portador. Esse espaço será fundamental no lance, mas será fundamental não pelo passe ter saído para lá, mas sim porque Fabregas (assinalado na imagem) percebeu que era ali que devia estar para garantir o centro de jogo com um triângulo e fixar ali os defesas, abrindo também a possibilidade da linha de passe. Xavi, inteligente como é, progride para receber e jogar de frente.


O passe entrou em Xavi, e Fabregas já está na zona decisiva de todo o processo. Decisiva porque o seu posicionamento abre duas hipóteses à decisão de Xavi. Ou faz passe de ruptura para Fabregas, ou lateraliza para o lateral. Quem não sabe e fica na dúvida é o defesa do Atlético. Essa dúvida faz com que se posicione num lugar intermédio e abra as duas hipóteses tentando ainda interceptar qualquer uma das hipóteses, obrigando Xavi à decisão de risco. No outro lado da imagem vemos a forma como Neymar (inteligente) vai percebendo onde pode intrometer-se no lance. É que o triângulo continua a ser realizado perto da bola, mas o seu garante são os movimentos exteriores a ele, também.


O lateral recebeu a bola. O defesa do Atlético tenta fechar a possibilidade de passe mais próxima mas toda a equipa está em basculação num sentido. Um passe longo, na zona morta, e para onde Neymar se prepara para atacar, pode ser fatal. E foi. O Barcelona percebeu em todos os momentos do jogo onde estava o ganho, e os jogadores foram complementando entre si os posicionamentos de forma a criarem dúvida no adversário mas garantirem sempre o sucesso ao seu portador da bola, o fundamental para a manutenção da posse e a progressão.

Veja tudo isto em velocidade real:

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Contrastes tácticos: Erros básicos

A primeira parte do Benfica no Funchal foi, provavelmente, a pior a que me lembro de ter assistido uma equipa de Jorge Jesus fazer sob o ponto de vista do ataque posicional. Um momento de jogo em que o treinador encarnado sempre habitou a fazer a diferença e onde as suas equipas eram claramente acima da média. Sobretudo em termos das dinâmicas criadas, fruto de posicionamentos certos e muito trabalhados. O que assistimos na Madeira foi uma equipa do Marítimo extremamente bem posicionada e concentrada, e um Benfica a pecar em momentos capitais, com erros típicos que já não se usam a este nível.


Matic tem bola e procura linhas para jogar. O Marítimo fecha de forma evidente qualquer entrada pelo corredor central, obrigando o Benfica a lateralizar e tentar entrar por fora. O espaço entre-linhas simplesmente foi abafado pelos verde-rubros mas Matic tem duas opções: passe de ruptura nos corredores laterais. Enzo Pérez, um dos mais esclarecidos, aponta-lhe o caminho. O sérvio faz isto.


Progressão (aceitável, para fixar um dos defesas) mas o posicionamento e movimentação que Djuricic fez retira-lhe uma das opções: má leitura do 10 do Benfica a posicionar-se num espaço que elimina uma das linhas de passe possíveis, mas que liberta a de Lima. Contudo, numa fracção de segundos, Matic já tinha tomado a decisão, difícil de alterar a meio da execução, e mais um passe errado. Repare-se ainda no posicionamento de Enzo Pérez. A culpa não é sua, claro. Neste momento tem de descentralizar a zona de pressão do Marítimo. Colocar-se fora do centro de jogo (triângulo então definido pelo Djuricic) e dar largura pelo seu corredor. Fica no meio. Facilita o Marítimo.


Imagem 3. Matic com bola e tem junto a si Gaitán, que veio pedir jogo. Amorim, simplesmente a olhar, quando podia procurar oferecer uma solução. Cortez sem sentido de ruptura, e Maxi, quando devia estar aberto, perto do colega, facilitando a tarefa de Sami que na imagem já está completamente dentro do corredor central a fechar uma linha de passe entre-linhas (para Djuricic). Erros atrás de erros.


Amorim com bola. Matic a 2 metros, linha de passe possível para Gaitán que dá largura mas vejam o posicionamento de Enzo Pérez. Mais uma vez, só pode ser do hábito. A largura e profundidade dada pelo corredor devia ser dele. Devia também largar aquele espaço, levar com ele o defesa, e permitir um apoio frontal de Djuricic ou Lima. 


Princípio básico do jogo. Matic com bola, Amorim perto. Uma vez mais. Já percebemos que este erro foi constante. Mas o triângulo de circulação para definir o centro de jogo onde está? O garante da progressão? O jogador que procura receber para jogar de frente? O apoio frontal? A pergunta fica explícita no ponto de interrogação. E Matic, claro, sem outra opção, tem de jogar para trás.


Djuricic, uma vez mais, mal posicionado, e o centro de jogo que mais uma vez não existiu. Matic não tem outra opção se não voltar a lateralizar o jogo. Mas pelo corredor central conto 4 jogadores do Marítimo prontos a bascular e o Benfica apenas com o portador da bola. Impossível.


Primeiro lance em que Djuricic aparece entre-linhas e consegue receber e rodar. O problema é que o posicionamento de Lima é o que vemos. Limita-se a olhar, e a sombra na imagem do lado direito é um jogador do Marítimo. Alguém adivinha? Djuricic lateralizou, o Marítimo basculou, e o Benfica não conseguiu penetrar uma vez mais.


Imagem que define tudo o que foi possível ver. Djuricic está com Enzo numa zona perigosa, abrem-se 2 possibilidades de fechar o centro de jogo, com o posicionamento de alguém, quer em ruptura, quer em apoio. As zonas definidas permitem-nos pensar o que estaria o resto da equipa à espera para oferecer uma opção. Os 2 jogadores do Benfica que aparece na imagem foram obrigados a tentar uma combinação directa contra 4 elementos e acabaram por perder o lance.

Tantos erros não são normais em jogadores que à pouco tempo eram tão inteligentes e fortes nestes processos. Parece-me claro que há um desgaste, e grande, em relação a tudo o que é o processo e o cansaço existente é sobretudo psicológico. As decisões não podem ser boas, o pensamento não pode ser o melhor, quando não estamos focados e disponíveis nas acções que realizamos.

Descodificando Funes Mori


O Benfica anunciou hoje a contratação de Funes Mori ao River Plate para reforçar a sua equipa. O avançado argentino de 22 anos chega numa altura em que era criticado pelos adeptos do River, despertando a normal desconfiança em Portugal por quem não o conhece. O último jogo de Funes Mori ao serviço do River data do dia 17 de Junho quando a sua equipa saiu derrotada do campo do Lanús por 5-1. Nesse mesmo mês, no dia 3, jogou frente ao Argentino Juniors. E foi esse o jogo que fomos ver.

1ª Parte:

1' Sai em pressão ao portador da bola originando um mau passe e recuperação da posse.

2' Canto ofensivo, foge bem à marcação mas guarda-redes antecipa-se quando se preparava para finalizar.
6' Livre lateral ofensivo, foge à marcação e tem um bom cabeceamento, ainda distante da baliza, para defesa apertada do guarda-redes.
7' Transição ofensiva, entra em mobilidade no centro de jogo, recebe em rotação com o pé esquerdo, toca num colega e procura espaço para receber.

8' Disputa bola no ar, ganha e joga de cabeça para colega, entrando em ruptura, recebendo na frente, procurando nova tabela com o avançado que é interceptado.
10' Recebe, roda, toca num colega e desmarca-se entre-linhas para receber.
11' Lançamento, sai da posição, vem buscar jogo, recebe no peito, joga com colega e desmarca-se para receber.
11' Novo lançamento, recebe no peito, fixa defesa em protecção à bola e joga para colega procurando devolução que não acontece.
13' Recupera bola dentro do seu meio-campo, sai em transição rápida em progressão com bola, procura a tabela para ir receber nas costas do defesa, recebe, roda e joga no lado contrário originando uma situação de 3x2 favorável. O colega que recebeu perde a bola.
15' Alívio do defesa da sua equipa, bola difícil mas antecipa-se ao defesa, tocando a bola para um colega.
18' Baixa para receber, falha recepção mas colega fica com a posse.

19' Recebe sobre a esquerda, toca num colega e vai buscar na frente, adversário intercepta.
19' Lançamento estudado, recebe dentro da área depois de combinação com colega, muito pressionado remata por cima.

21' De costas procura rodar para passar mas acaba desarmado.
22' Recebe descaído pela esquerda dentro da área, trabalha sobre o defesa mas remata de pé esquerdo muito por cima.
22' Ganha bola de cabeça a meio-campo.
25' Toca e desmarca-se.
26' Sai da posição para arrastar defesa, lançando o seu colega o passe nas suas costas para avançado.
29' Recebe e combina com colega para saída em transição.
32' GR pontapeia bola, ganha nas alturas no meio de 2, criando situação para passe de ruptura interceptado.
37' Recebe bola na esquerda, alguma dificuldade na recepção junto à linha, fazendo passe para trás quando podia ter arriscado 1x1.
41' Passa para colega e desmarca-se.

2ª Parte:

50' Disputa bola no ar.
51' Perde bola mas recupera de seguida e passa para colega em apoio frontal.
52' Recebe no peito, combina com colega e vai buscar na frente, joga 1x1, faz o drible e sai para situação de finalização mas sofre falta.
57' Baixa no campo para receber, toca no colega e desmarca-se.
59' Começa a jogar como elemento mais fixo pelo corredor central.
60' Transição ofensiva do River, sobre a direita vem em ruptura, consegue ultrapassar o adversário mas é carregado.
66' Vem buscar jogo, recebe o passe e tenta jogar de primeira mas erra o passe.
73' Recebe bola dentro da área, num movimento de saída para ganhar espaço, roda sobre defesa, tenta o remate já em queda interceptado. Consegue a recuperação, fixa o defesa em progressão, toca no colega mais próximo que remata por cima.
76' Depois de canto defensivo, passe para fora da zona de pressão.
77' Cruzamento largo, ganha as costas do lateral, recebe de peito dentro da grande área e em excelente posição remata para grande defesa do guarda-redes do Argentinos. Era o 1-0.
94' Disputa bola no ar.

O Argentinos venceu por 2-0, com dois golos já para lá do minuto 80. Funes Mori teve nos pés o golo que colocaria a sua equipa em vantagem pouco tempo antes. Eclipsou-se do jogo a partir desse momento, muito por culpa de uma equipa do River desarticulada, sem dinâmica colectiva e com um futebol muito pouco pensado e objectivo.

Neste jogo em particular, a equipa então treinada por Ramón Diaz jogou em 4x3x3 com Funes Mori a ocupar o lado esquerdo do ataque, embora com liberdade de movimentos para procurar o jogo interior e dar um apoio mais directo ao avançado Luna. Teve 3 ou 4 situações de finalização que desperdiçou, mas só uma delas de flagrante golo, num River que pouco ou nada rematou à baliza para além do agora reforço do Benfica. Não tenho problema pois, em avaliá-lo como o melhor elemento ofensivo da equipa no jogo.

Numa análise mais global aos jogos observados de Funes Mori, sobretudo pelo River Plate, importa perceber que o contexto não era o melhor para si. Equipa desarticulada, sem um modelo atractivo e pouco jogo exterior, e sobretudo interior, a servir os avançados. Futebol directo, pouco pensado, muito na base da luta e de situações individuais.

A confiança do jogador. Ao longo do tempo foi sofrendo vários problemas com os adeptos e com a própria estrutura técnica e de desconfiança com as suas qualidades. Teve alguns falhanços comprometedores e acabou por deixar-se arrastar numa espiral negativa em seu redor. Contudo, e analisando globalmente as suas características:

Jogador dotado. Alto, possante, veloz, não tem medo de ir ao choque, disputa sempre bolas difíceis e sabe segurar a bola em protecção. É rápido, daí ter jogado alguns jogos fora do corredor central. Bom poder de impulsão.

Parece algo trapalhão, por vezes, sobretudo na recepção, mas tem qualidade em progressão. Sabe jogar, passa bem, tem técnica de remate, tem capacidade aérea, boa técnica de cabeceamento, trabalha bem os lances.

Percebe o jogo e tem uma cultura acima da média da restante equipa. Bom poder posicional, procura sempre boas opções, sabe jogar entre-linhas e em combinações directas (movimentação preferencial). Por vezes incompreendido pelos colegas em muitos lances.

Em termos psicológicos parece claramente condicionado em muitos momentos. Poucas vezes arrisca uma situação de 1x1 tendo qualidade para sair vencedor e em situações vantajosas, não tem muito tempo a bola nos pés, procura sempre uma opção próxima. Mas é inteligente ao fazê-lo, passa e procura receber em zonas que lhe permitam progredir.

No River, como nem sempre jogava como avançado posicional, andava longe da área, o que lhe retirava do seu habitat natural, embora demonstrasse qualidade a jogar numa posição mais recuada ou mais lateral. Finaliza bem de cabeça, tem qualidade de movimentação dentro da área, mas falta-lhe maior frieza e serenidade a finalizar, o que surge, muitas vezes, nos avançados, só a partir de uma certa idade, ou em outros casos, só através de confiança e de atingir determinado estatuto que o permita libertar e tranquilizar.

Fazendo o transfer para o Benfica, Funes Mori vem para jogar como elemento mais posicional ou no apoio a outro jogador mais fixo. Pode jogar pelo centro ou pela ala (mas sempre como avançado), até entre-linhas, acaba por ser um jogador completo em termos daquilo que é a margem que tem para ser potenciado em determinada função.

Tem qualidade, está longe de ser o jogador que os adeptos do River pintam dele, mas não se espere que seja o jogador para fazer esquecer um passado mais recente do Benfica de Óscar Cardozo. Pode ser uma opção válida e ainda me parece um produto totalmente inacabado de um jogador que ganhando tranquilidade, estatuto e serenidade em muitas das suas decisões, poder constituir uma boa surpresa (face às expectativas) de um Benfica que não está, neste momento, numa fase positiva para dar confiança a este tipo de atletas.

domingo, 18 de agosto de 2013

Benfica longe dos princípios que o notabilizaram



A equipa do Benfica já vinha deixando sinais preocupantes na pré-temporada sobretudo a nível da organização e transição defensiva. Factores esses que têm sido comuns aos anos de Jorge Jesus no Benfica e que este ano voltariam a ser os principais entraves a um Benfica vencedor. Contudo, hoje na Madeira, foram os princípios ofensivos que estiveram muito longe daquilo que a equipa encarnada nos foi habituando.

Desde logo com o onze inicial. Procurando um maior equilíbrio e controlo dos momentos do jogo, não desequilibrando tanto a equipa em ataque posicional com a inclusão de Ruben Amorim e um jogador bem mais culto como é Enzo Pérez no lado direito, a verdade é que o treinador do Benfica desfez a dupla de maior sucesso do ano anterior (o argentino e Matic) e retirou largura e profundidade ao seu futebol. A progressão praticamente não existia, ninguém se movimentava entre-linhas criando superioridades numéricas ou obrigando a defesa do Marítimo a desposicionar-se.

Os madeirenses deram o controlo ao Benfica, não se importaram em dividir o jogo, e tiveram tarefa fácil em organização defensiva, com uma basculação fácil e a um ritmo pouco intenso o que não lhes trouxe problemas. O Benfica não teve mobilidade, não demonstrou qualquer referência em termos de dinâmica colectiva, não teve imaginação e assim torna-se muito mais difícil.

ps: Já elogiei muitas vezes Maxi Pereira mas de há 2 anos para cá, já não tem nível para jogar no Benfica. Não faz contenção, joga todos os lances à queima, não temporiza, posiciona-se mal, corre mal, tem dificuldades grandes em perceber o jogo... assim não!


sexta-feira, 16 de agosto de 2013

A magia Nacho


Já passaram mais de três anos da altura em que aqui falei sobre um dos jogadores que despontava numa das divisões secundárias do futebol europeu. Nacho Scocco pode até ter passado ao lado de uma grande carreira europeia mas vai brilhando pela América do Sul e, noutro nível, marcando um trajecto claro daquele que é, na minha opinião, um dos melhores jogadores a actuar hoje em dia pelo continente americano.

Scocco saiu do AEK em 2011 para o Al Ain. O clube do golfo não se arrependeu da aposta num jogador que precisou de pouco mais de mil minutos de jogo para fazer dez golos. Assim se despediu para regressar ao clube que o "revelou", o Newell's. Vi muitos jogos da equipa do agora treinador do Barcelona, Tata, e se o sucesso que obteve no clube argentino o fez catapultar para um dos maiores clubes mundiais, em muito se deve também ao que lhe deu Scocco.

O futebol é assim, relação de partilha, de troca, do momento, e o avançado argentino acabou por no seu percurso conseguir elevar para outro nível (e fixando-se como avançado, nesta fase da carreira) o rendimento de uma equipa moldada à sua imagem, e à do seu treinador, onde os números não mentem: 33 jogos, 24 golos, melhor época pessoal de sempre em termos de concretização e um estatuto difícil de manter outros emblemas afastados. Foi por isso que o Internacional que conta já com D'Alessandro e Forlán avançou para a sua compra e ontem, no jogo de estreia, mais 2 golos.

Uma qualidade técnica muito acima da média, mas não só. Inteligente, gosta de jogar um futebol apoiado e de requinte em combinações directas. Venenoso sempre que procura espaço para finalizar, onde demonstra enorme frieza, remata de igual forma com o pé direito ou esquerdo, é um jogador que continuará a marcar um percurso muito interessante de alguém que tinha tudo para poder, no futebol europeu, ter escrito outra história.

domingo, 9 de junho de 2013

Markovic pensado por Jesus


Está iminente a confirmação já esperada da contratação de Lazar Markovic pelo Benfica, jogador sérvio de 19 anos que actua pelo Partizan de Belgrado. Nascido em 1994, especula-se que tenha custado ao Benfica uma verba a rondar os 10 milhões de euros.

Markovic vem reforçar a ideia de um Benfica em mudança em termos de desenho táctico, no plano teórico. Se Djuricic vinha antecipar o adicionar de outro jogador ao sector intermediário, Markovic praticamente confirma-o pelas características que tem. Apesar de jogar muitas vezes sobre os corredores laterais, é usual vê-lo por dentro, junto ao avançado.

Markovic é um jogador que faz a diferença pela tremenda mudança de velocidade que possui, uma capacidade de aceleração que o torna difícil de travar. Joga a partir dos corredores, mas sempre em movimentos interiores e de penetração com bola ou em toque curto. Gosta de se aproximar da zona de finalização, podendo também actuar solto no ataque, na ligação entre sectores, sobretudo com espaço, pela capacidade que tem em desequilibrar em transição.

No 1-4-4-2 de Jesus, a posição que pode estar perspectivada para ele, de forma imediata, será a de jogador mais liberto do ataque, que faça a ligação entre os médios e o sector ofensivo, mas também uma das faixas, embora nesta altura por ainda não ser um jogador forte do ponto de vista posicional e de disponibilidade para auxiliar em organização defensiva, possa não estar em equação esta última possibilidade.

No 1-4-3-3 que foi utilizado este ano, e que se perspectiva que possa ser a cara nova deste Benfica, é jogador para fazer as três posições de apoio ao homem mais avançado, ganhando o Benfica um jogador muito forte no 1x1 e que possa pela capacidade de improvisação manter o volume ofensivo da equipa pela forma como procura o corredor central, mesmo retirando de lá, em perspectiva, um avançado.

Markovic tem todas as condições para, apesar dos 19 anos, agarrar um lugar de destaque no Benfica, pois tem qualidade para se tornar num dos jogadores mais talentosos do futebol europeu nos próximos anos. Esta época apontou 7 golos pelo Partizan onde se sagrou campeão sérvio. Assim que exista confirmação oficial sobre a compra de Sulejmani, conto falar também um pouco de um jogador que apesar da aparente queda na carreira, pode ter ainda muito para dar ao futebol.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Onde encaixará Djuricic no Benfica?


O Benfica adiantou-se à concorrência e assegurou, atempadamente, um dos maiores talentos a despontar no velho continente. Filip Djuricic, sérvio, 21 anos, vai vestir de encarnado na próxima temporada e a expectativa em seu redor é muita.

Olhando para as características do sérvio, é possível vê-lo encaixar em vários modelos e sistemas de jogo. É um jogador de último terço, zona de decisão, com imensa qualidade entre-linhas pela velocidade que imprime em progressão, muito forte nas abordagens um-contra-um quando embalado, decide bem, com maturidade e com um toque de criatividade muito característico. Chega muito bem a zonas de finalização, onde assiste ou finaliza com igual eficácia. 

É um jogador com características cada vez mais vistas nos actuais jogadores da posição 10, uma nova vaga que visa adequar o seu futebol às necessidades actuais do jogo, onde os clássicos jogadores dessa posição, como Rui Costa, Aimar, Riquelme e outros, vão perdendo expressão. Djuricic é uma mistura de um pensador e criativo, com um extremo de rasgos e de situações de penetração, daí não ser de estranhar que nesta última época pelo Heerenveen tenha jogado encostado ao corredor esquerdo do ataque (apostando em movimentos interiores) e também pelo corredor central na posição 9.

Neste Benfica, o seu futebol adapta-se perfeitamente ao que Jorge Jesus pretende. Joga rápido e de forma eficaz, adaptando-se à velocidade e necessidade de mostrar eficiência na zona de decisão, nos ataques rápidos do Benfica, pela capacidade de situações de 1x1, capaz também de em momentos de organização ofensiva trazer qualidade pela forma como idealiza e executa o que pretende para os seus lances. 

No 1x4x4x2 mais habitual do Benfica, Djuricic seria o companheiro de ataque do jogador mais fixo, jogando liberto, deambulando pelo ataque, baixando entre-linhas para conseguir jogar de frente para a baliza, sendo referência para situações de combinações directas ou último passe. Frente a determinados adversários que joguem mais fechados, pode também desempenhar a posição de meio-campo que faz actualmente Enzo Pérez, pela capacidade que tem de ligar sectores em curtos espaços de tempo e criar situações de superioridade numérica favoráveis à sua equipa. Contudo, é no 1x4x3x3 que melhor pode explorar as suas características, jogando na posição 10, que foi ocupada por Gaitán em alguns jogos deste ano desportivo.

A adaptação de Djuricic a Portugal será sempre uma incógnita por todos os factores que envolvem a mudança de um jogador para outro país, com outras culturas e outras formas de encarar o jogo. Contudo, e não conhecendo as suas competências psicológicas, parece estar evidente que o sérvio é um dos grandes reforços do Benfica da última década, capaz de trazer um rendimento ímpar ao clube da Luz e tornar-se numa das suas grandes referências.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Benfica agarrado à estratégia


"Os jogadores do Benfica confiam plenamente naquilo que fazem" Jorge Jesus.

Esta frase já foi dita vezes e vezes, esta época, pelo treinador do Benfica. Sem confiança e crédito no trabalho realizado, não há sucesso. A questão não é essa, mas sim a forma como a equipa reage perante as dificuldades inerentes a essa mesma estratégia e aos resultados que ela está a obter. Nisso, o Benfica foi incompetente hoje.

O Benfica abordou este jogo com uma perspectiva semelhante aquela que já enfrentou outras equipas nesta Liga Europa. Uma pressão mais baixa do que o normal, com as linhas juntas, baixando os avançados para evitar entrada da bola na zona dos médio centro de forma directa, obrigando as equipas contrárias a desgastarem-se em circulação e a descentralizarem o jogo do corredor central, levando-o para os corredores laterais onde procurava recuperar a bola para sair em transição. Fruto a essa estratégia, os turcos apostaram no jogo directo, menos lateralizado como era objectivo do Benfica, no sentido de Webo e Moussa Sow poderem segurar para os médios (nomeadamente Baroni) terem tempo e espaço para decidir.

O Benfica pecou. E pecou porque não se adaptou às dificuldades que estava a enfrentar. Primeiro porque não encontrou forma de superar as dificuldades que André Gomes estava em ganhar segundas bolas, nessa forma de construção de jogo directa dos turcos. Matic fez um jogo brilhante a nível posicional mas foi insuficiente. Depois, a forma como a equipa saía para o momento ofensivo foi francamente lenta pois a mobilidade que, juntos, Cardozo e Aimar oferecem, é pouca e preza fácil para qualquer defesa deste nível.

A grande arma dos turcos está no poderio dos seus médios. Raul Meireles aparece muito bem no apoio aos avançados e é perigoso pela meia distância. Baroni, apesar de pouco dinâmico, tem imenso critério e muita qualidade em tudo o que faz. O Benfica tem tudo para ganhar a eliminatória na Luz. Hoje Maxi Pereira fez um jogo de bom nível, acabou por ser ele a dar o abanão na equipa em termos de transição ofensiva e ligação de sectores pela forma como penetrava quer por dentro, quer por fora, e sacudia a pressão turca. Matic foi o melhor em campo, hoje, do lado do Benfica. Muito abaixo do esperado Cardozo, raramente soube segurar bolas, movimentar-se para criar problemas aos turcos, permitir que a equipa subisse com tempo. Ola John (apesar de reconhecer-lhe muita qualidade), a este nível, com tanta displicência, com tantas decisões erradas, com tanta desconcentração nas movimentações dos colegas, terá dificuldade em impor se tão cedo de forma definitiva no Benfica.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Os novos internacionais: Quem formou?


No seguimento do artigo anterior, onde se procurou analisar e desmistificar alguns temas relacionados com a formação de jovens talentos, convém deixar de olhar para o passado e o que outrora foi feito, para vermos o presente e analisarmos se os mesmos paradigmas se mantêm, ou por outro lado, outros fenómenos surgem e vão desmistificando alguns conceitos pré-concebidos.

E a realidade parece ser essa. Olhando para o percurso da selecção nacional, ninguém esconde que a actual geração está a alguma distância daquelas que foram, outrora, algumas das melhores equipas de sempre do futebol nacional. Ainda assim, e sem procurar os responsáveis ou apontar causas, vamos observar a última convocatória de Paulo Bento para a Selecção Nacional, no jogo amigável que Portugal disputou no Gabão.

6 são o número de jogadores convocados na casa dos 25 anos, ou menos. Entre eles estão Éderzito (Braga), Pizzi (Corunha), Ruben Ferreira (Marítimo), Luís Neto (Siena), Hélder Barbosa (Braga) e Sílvio (Atlético de Madrid). 

Este último, Sílvio, foge à regra, mas tem uma história curiosa para contar. Fez toda a formação ao serviço do Benfica mas, tal como acontece à grande maioria dos jogadores que chegam aos Juniores de equipa grande, dificilmente conseguem transitar para o plantel principal. Sílvio fez um ponto de ruptura completo na carreira. Tentou aventurar-se no estrangeiro mas foi recusado. Iria então para o Atlético do Cacém na III Divisão Nacional.

Fez lá uma época completa antes de se transferir para o Odivelas na II B. Mais um passo acima daria no ano seguinte. Rio Ave, primeira liga. Foi curto o caminho, mais curto do que supostamente pensou. Dois anos em Vila do Conde bastaram para ganhar bilhete para o Braga e desafios mais exigentes, ao ser vendido no final do ano para o Atlético de Madrid. Hoje é internacional português.

Hélder Barbosa agradece à Académica a sua formação. Foi de lá que se transferiu para o Porto com 17 anos. Jogaria ainda pela equipa B dos dragões antes de sair. Sucessivos empréstimos. Académica (2 anos), Trofense e Vitória Setúbal, uma época, antes da saída definitiva para Braga onde se vai fixando. Internacional português.

Neto chegou à Selecção aos 24 anos. Formação interessante: Sempre no Varzim, clube da terra. Acabaria por não aguentar ver o decréscimo de estruturas na Póvoa e saiu para o Nacional na 1ª Liga. Um ano bastou-lhe para convencer os responsáveis do Siena a pagarem por ele.

Rúben Ferreira, 22 anos. Jogador do Marítimo, com toda a formação completa no União da Madeira. Está a aparecer a grande nível e Paulo Bento premiou-o. Pizzi, um caso enigmático. Andou "escondido" e aparentemente perdido, pela opinião pública, no modestíssimo Bragança. Foi para o Braga com 18 anos, tendo sido emprestado 3 anos seguidos: Ribeirão, Covilhã e Paços de Ferreira. Evoluiu de forma assombrosa, faz um ano em grande no Braga, dividido por Paços novamente, acabando por sair para o Atlético de Madrid. Actualmente joga no Corunha e é uma das principais figuras da equipa.

Éderzito é outro caso curioso. Jogou toda a vida no Adémia, sendo recusado pela Académica, a mesma briosa que acabaria por o contratar já com idade adulta ao Tourizense, onde completou duas épocas, após uma passagem pelo Oliveira do Hospital.

Fica a questão: Onde andam os jogadores destas gerações de 1987, 1988, 1989, por exemplo, que jogaram no SLB, SCP e FCP durante a sua formação?

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Quem faz afinal formação?


No seguimento do estudo realizado pelo site Mais Futebol, sobre os jovens da formação que integram os plantéis dos chamados três grandes em Portugal (link que deixo no fim deste artigo - 1), faz sentido lançar outro olhar sobre a real formação que se realiza em Portugal. Os estigmas e os paradoxos existentes, que clubes realmente melhor formam, o mito de mais de metade da selecção nacional ter sido formada no Sporting, entre outros assuntos para abordar.

O que é afinal ser formado num clube. Para os regulamentos de inscrição na Federação Portuguesa de Futebol, um jogador conta como formado no clube, se entre os 15 e os 21 anos cumprir 3 épocas desportivas inscrito nesse clube. 

Este é um dado redutor e enganoso na maioria das situações. Tendo em conta que os jovens atletas iniciam a sua prática desportiva e competitiva, na maioria dos casos, entre os 7 e os 8 anos, temos de esperar quase o dobro do tempo para que se comece realmente a olhar para os dados de formação de um jovem atleta. Contudo, o seu percurso é muito mais do que o "dar uns toques e fazer uns jogos" até atingir os 15 anos.

A competição e o resultadismo existe mesmo logo a partir da idade de início, com a pressão de pais e dirigentes, mas fundamentalmente perpetuada por quem faz uma campeonite exacerbada com a venda de sonhos e ilusões que não passam de um meio para atingir os seus fins administrativos, financeiros e burocráticos de tudo o que envolve pertencer à formação de futebol no nosso país.

Vamos olhar para o passado. Longe dos grandes centros de treino de alto rendimento, com condições de topo a nível do processo de optimização de competências, os clubes iam sendo competitivos e iam abrindo espaço aos jovens que transitavam dos Juniores para a equipa principal. 

No último Europeu de Futebol realizado em 2012, fez-se ecos em Portugal e no estrangeiro dos méritos que o Sporting Clube de Portugal efectuou na formação de atletas. Escreveu-se que os leões eram o clube com mais jogadores formados no clube no Europeu de 2012 (link que deixo no fim do artigo - 2).

Olhando para os nomes citados, todos cumprem a regra de formado no clube. Dos 15 aos 21 anos estiveram efectivamente na formação de um grande. Contudo, sabemos que, tal como já foi dito anteriormente, esse é um processo demoroso, difícil, e muito turbulento. Não podemos olhar com normalidade para a campeonite de recrutamento que faz com que vejamos clubes com cerca de 40 atletas por ano de nascimento, cerca de 10 a 15, por época, novos no clube. Esta situação ocorre dos 7 aos 13 anos de uma forma cíclica.

Olhando para os nomes apresentados pelo artigo espanhol, saltam alguns nomes à vista. Vejamos então o percurso de alguns destes nomes, como Custódio, Nani ou Varela. Custódio, nascido em Guimarães, iniciou o seu percurso em Guimarães. Iniciou e concluiu, praticamente, Viajou para Lisboa aos 18 anos para jogar no Sporting B e iniciar o seu percurso como profissional. Estreou-se na equipa principal do Sporting aos 20 anos. Contudo, o facto de ter entrado com 18 anos, permitiu-lhe cumprir a regra e contar como formado no clube.

Silvestre Varela, ou o Drogba da Caparica, foi na terra de pescadores que fez o seu percurso. A jogar no Costa da Caparica era um jovem em grande momento, tendo sido contratado pelo Sporting para jogar na sua equipa de Juniores. Tinha Varela, na altura, 17 anos.

Nani é mais um dos casos de grande perspicácia da formação do Sporting para formar talentos. Um jogador de inegáveis qualidades, que está no top de atletas formados pelos lisboetas. Contudo, olhar para o trajecto de Nani é perceber, que mais uma vez, as coisas não são tão assim como nos pareciam. Nani, nascido num bairro problemático da Amadora, começa a jogar futebol no clube próximo de casa que melhores condições lhe oferecia: o Real Massamá. É lá que cresce, que evoluiu e que enfrenta o início da vida adulta. O Sporting conseguiu chegar até ele. Com 17 anos, Nani aparece de leão ao peito.

O que têm os responsáveis de Guimarães, Costa da Caparica e Real Massamá em comum? Um orgulho pelos seus atletas, que ajudaram a crescer e praticamente os empurraram para a vida adulta, estarem a brilhar na alta roda do futebol, mas também uma mágoa por neste tipo de conceitos e trabalhos não verem citados os seus nomes pelo trabalho que desenvolveram.

(continua...)

Link 1: http://www.maisfutebol.iol.pt/espanha/benfica-sporting-fc-porto-porto-formacao-jovens-formados/1389153-1486.html

Link 2: http://www.marca.com/2012/06/14/futbol/eurocopa_2012/portugal/1339669077.html

domingo, 2 de setembro de 2012

Matic sem Javi na sombra


"Melhorámos porque o Matic entrou para a posição 6, apesar do Witsel saber jogar ali, não tem tantas rotinas, estávamos a sofrer muitos contra-ataques e o Matic equilibrou a equipa e permitiu-nos ter mais segurança". Rodrigo no flash-interview.

Excelente leitura. Mas quem pensa que o erro de Jesus foi ter colocado Witsel a 6 em detrimento de Matic, tem de perceber que o sérvio não tinha ritmo nem aguentaria, provavelmente, mais do que uma parte. Foi notório que o Benfica procurou manter-se fiel ao seu modelo e fê-lo, mas as características dos jogadores dão-lhe toda a sua dimensão. Matic é um jogador que está a aprender muito sob o ponto de vista posicional com Jesus. Não é tão agressivo como Javi Garcia, é certo. Não vai ganhar tantas bolas nas alturas (equipa obrigatoriamente tem de descer o bloco da 1ª zona de pressão) evitando o "chutão", de recurso, para fazer com que Matic não vá andar a disputar sempre as primeiras bolas como fazia o espanhol.

Matic vai ser um grande recuperador de bolas pela forma como equilibra e posiciona a equipa. Em processo ofensivo da-lhe outra capacidade. Leitura, tomada de decisão, qualidade técnica e de passe. Matic vai ser uma boa surpresa, mas o Benfica tem de adaptar o seu modelo a esta nova circunstância, potenciado o sérvio naquilo que ele tem de melhor.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Gémeos na classe, distintos nas acções


É fácil vir elogiar o Braga. Torna-se cliché dizer que os comandados de José Peseiro, ao criarem uma das histórias mais gloriosas das suas jornadas europeias, se encontram neste momento a um nível muito alto. E a verdade é que isso acontece e foi hoje evidente em Udine. Importa olhar com atenção para aquilo que foi a inteligência do treinador ao gerir os recursos.

Chegou a um clube com uma ideia de jogo pré-concebida e um modelo que procurou implementar. Diferente, em quase tudo, das ideias gerais que jogadores influentes do grupo tinham há vários anos enraizados ao serviço dos bracarenses. A pré-época não foi muito conseguida e existiu alguma demora a assimilar processos.

Hoje, vemos um Braga a desdobrar-se em organização ofensiva naquilo que é o seu sistema de há anos, mas compacto, com princípios de jogo interior, de mobilidade e rupturas pelo corredor central, de ênfase dos apoios exteriores a surgirem pelos laterais, ou seja, assistimos a uma mistura, se quisermos, das ideias existentes, às ideias que Peseiro vai procurando impor.

A verdade é que o treinador natural de Coruche colecciona bons trabalhos por quase todos os sítios onde passou. A inteligência e abordagem, a sensibilidade que parece demonstrar, vão voltar a fazer deste Braga uma das surpresas maiores do campeonato.

Mas este texto é para falar dos dois cérebros do jogo dos bracarenses. Não vou falar de Custódio que pela sua capacidade posicional, inteligência e percepção dos momentos e simplicidade de processos, é o melhor 6 para jogar na selecção portuguesa. Vou falar de Hugo Viana e Mossoró.

O português é um autêntico craque para uma equipa da dimensão do Braga. Custa entender como muitas vezes é desvalorizado. A forma como gere todo o processo de construção dos bracarenses, como assume as suas fases, os seus ritmos, as suas decisões, mas acima de tudo, a qualidade com que o faz, é de um jogador de outro andamento. Andamento esse que não tem a nível de intensidade. Mas para que o precisa? Pensa e executa rápido. Quase sempre bem, com uma eficácia tremenda. Lê e cria espaços em zonas que procura para receber e poder optar. Viana, em final de contrato, pode assinar o contrato da sua vida na próxima época.

E Mossoró, claro. Um Braga que vive da mobilidade e ruptura dos seus elementos, com e sem bola, pelo corredor central. Também pelas penetrações à procura de apoios frontais. Cabe em qualquer lugar deste sistema pela qualidade que tem. Se quando tem bola e procura o apoio, ou procura a progressão, e não há solução, arrisca, desequilibra, explora espaços difíceis de penetrar, mas sai vivo deles. É outro jogador a fazer anos de muita qualidade ao serviço do Braga, e que também aos 29 anos - como Viana - promete dar o rendimento total a um grupo que pela forma impressionante como está a fazer a recuperação após a perca de bola e fecha as opções para o adversário iniciar uma transição ofensiva, promete, neste nosso campeonato, uma época de alto nível, como as outras que tem realizado.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Uma questão de adaptabilidade


O futebol profissional comporta diferenças grandes em relação ao que acontecia no campeonato nacional de juniores. Ver as equipas B é ver isso mesmo. Nesta fase inicial, vê-se com expectativa alguns jogadores de quem se diziam maravilhas na formação, mas que por variadas razões estão a demorar a manter o mesmo nível de rendimento. O sentido oposto está bem presente, e a equipa B do Benfica que ontem jogou em Santa Maria da Feira tem dois jogadores de que importa falar.

Conheço o Ivan Cavaleiro desde os seus 13 anos quando jogava nos Iniciados do Benfica. O seu nível de rendimento era insuficiente, a margem que parecia apresentar também, e por isso acabou por ser dispensado. O Belenenses teve um papel importantíssimo no seu renascer, abrindo-lhe novamente as portas do Benfica, anos mais tarde.

Ivan Cavaleiro é um jogador com upgrade muito grande em relação ao que fazia nos Juniores. Fisicamente está mais forte, fruto disso aumenta a confiança de abordar os lances e partir para cima em iniciativas individuais. Drible, velocidade, explosão, simplicidade de processos. Vai crescendo neste Benfica B e as exibições que tem feito catapultaram-no para um dos melhores extremos da liga até ao momento. Joga em ambos os flancos com a mesma qualidade e está a conseguir aparecer muito bem em zonas de finalização.

Outro é Luciano Teixeira. Já Internacional A pela Guiné era um dos mal-amados da equipa de Juniores, porque era muito mau tecnicamente, dizia-se. A posição 6 na formação, sobretudo de um clube grande, é um lugar totalmente despreparado para aquilo que vai acontecer no futebol senior. Diria mesmo que é um futebol diferente. Isto porque uma equipa grande na formação detém um poderio muito grande em relação a todas as outras equipas. Essa diferença de qualidade faz com que os blocos defensivos e as zonas de pressão sejam, maioritariamente, em terrenos mais recuados, que ofereçam mais liberdade à 1ª fase de construção da equipa que em teoria vai assumir o jogo na sua posse e circulação.

Não é preciso ir muito longe para ver Zezinho, do Sporting. Na formação quando colocado como 6, como o faz até nesta própria equipa B do Sporting como pivot defensivo ao lado de João Mário, tem níveis de rendimento completamente diferentes. Nos Juniores podia receber, esperar, pensar, e executar. Essa dimensão não existe no futebol profissional e a pouca dinâmica e intensidade que apresenta deixam-no um nível abaixo daquilo que vai acontecendo nos leões com Chaby, Bruma, Esgaio e João Mário, por exemplo.

Luciano Teixeira tem tudo aquilo que é necessário um 6, de futebol senior, ter. E a competência que detém está a elevar, e muito, o seu status neste Benfica. Os níveis de agressividade têm de estar patentes, tem de lutar, ir lá acima disputar bolas, saber utilizar o corpo em situações de choque, encostar no seu opositor directo e não deixar rodar. Para além dessas situações, Luciano sabe preencher o seu espaço, sabe interpreta-lo e tem demonstrado imensa qualidade na forma como persegue o portador da bola e anulando-lhe a progressão consegue rouba-la e recupera-la para uma zona de posse.

O facto de não ser um portento a nível do passe, não tem de ser um impeditivo para limitar o seu jogo. É tudo uma questão de modelo da equipa, em função das características em que se insere. O Benfica joga com um meio-campo a 3, com 2 interiores. Luciano jogando na posição 6, na 1ª fase de construção, recua e faz uma linha a 3 com os centrais (que dão largura), dando imensas linhas de passe disponíveis para progressão com o aparecimento dos interiores a pedir jogo. Assim, mesmo nessa fase, está protegido pois tem de fazer passes de 5 metros para os lados ou para a frente em situações mais confortáveis de pressão, do que o 6 que tem de receber de costas para a baliza, rodar sob oposição e ter de entregar com qualidade. E ontem, dentro do seu meio-campo, fez um passe de 20 metros a rasgar a defesa do Feirense e a isolar João Mário.

Duas belas surpresas nesta equipa B do Benfica que ontem tem um resultado muito interessante na casa de um dos assumidos candidatos à subida de divisão.

sábado, 11 de agosto de 2012

Melga e Ola John: Tomada decisão x execução


Dois dos casos mais bicudos desta pré-época do Benfica chamam-se Melgarejo e Ola John. Se a adaptação a lateral do paraguaio parece-me bastante inteligente da parte do treinador, assim ele aprenda os aspectos tácticos e as missões defensivas que terá de executar dentro deste modelo do Benfica, não deixa de ser evidente algumas lacunas que ainda apresenta no seu jogo.

Partindo desta dimensão da tomada de decisão, é bom ver que Melgarejo toma quase sempre a opção mais correcta. É inteligente na abordagem aos lances e sempre que é chamado a decidir. Pensa rápido e toma a decisão, normalmente, mais simples, mas sempre a mais eficaz. Contudo, demora a ganhar consistência nas suas execuções. Em transição ofensiva, ou mesmo em situações de organização, sem grande densidade do adversário em pressão, erra em passe, sobretudo curto. Muitas vezes por dificuldade de comunicação ou de interpretação semelhante com os colegas. Mas não deixa de ser algo duvidoso, nesta altura, ver Melgarejo ter dificuldade a executar quase tudo o que é lance com bola no pé. Vai a tempo de melhorar, e muito.

Ola John, na mesma dimensão, é o oposto. Jogador que denota margem de progressão elevada, rendimento ainda curto, mas muito para dar. Contudo, há alguns factores que condicionam a tomada de decisão, nomeadamente a confiança. Ola John parece pouco confiante, pouco irreverente, pouco decidido. Isso reflecte-se no seu jogo, e de que maneira.

Raras são as vezes que aborda o adversário no um contra um. Quando o faz, fruto de boa progressão com bola, executa bem, mas poucas vezes toma a decisão mais correcta. Ou deriva para dentro quando deveria manter a largura. Ou faz passes a pedir movimentos de ruptura em profundidade para Cardozo, o que mostra desconhecimento absoluto do modelo de jogo e características dos colegas. Ou temporiza quando deve acelerar, chegando coberturas e perdendo a bola.

Dois produtos em bruto, para Jesus trabalhar, com enorme margem, mas que o rendimento actual está muito condicionado.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Montpellier: Uma questão de identidade


Numa altura em que o futebol mundial vai sendo invadido pelas novas tendências económicas e desportivas, em que as empresas de investimento tomam posse dos clubes e investem neles, à procura de os tornar uma referência, esta é uma discussão que está muito em voga nos dias de hoje e faz algum sentido olhar para ela. Podia ser feita uma retrospectiva daquilo que está a acontecer em Málaga, onde os habitantes daquela cidade não esparariam ver o seu clube a ingressar na Liga dos Campeões, fruto do investimento do dinheiro árabe, ou do renascimento do gigante adormecido Paris St Germain que se assume actualmente como o clube mais poderoso do Mundo. É que já nem o Manchester City, recuperado pelo mesmo dinheiro árabe, parece ter andamento para as loucuras de mercado dos franceses e, estabilizou as suas compras, depois de ter gasto quase 500 milhões de euros, num espaço de tempo curto, naquilo que foi a expansão de um clube, então refugiado ao potencial e rendimento do rival de Manchester, o United.

Mas hoje, o que me leva a escrever, é uma questão muito delicada. Envolve investimento. Aposta na formação. Aposta no produto nacional. Boa gestão e organização. Factores fundamentais, claro, difíceis de dissociar da ideia do adepto de futebol, mas quase impossíveis de os interligar. O Montpellier, veio, na época passada, e num mercado com concorrentes de peso (PSG, Marselha, Lyon, Lille), dar um exemplo claro daquilo que pode ser a gestão bem operacionalizada de um clube de futebol.

Chegámos ao final e viu-se festa. O clube da cidade francesa, fundado apenas em 1974, sagrou-se pela primeira vez na sua história campeão de França, quando em 2009 andava pela 2ª divisão do campeonato. O presidente do clube apostou em Rene Girard para comandar a equipa e construí-la à sua imagem. Fundamentalmente deu-lhe tempo e liberdade para colocar o seu plano em prática. Desde logo a aposta no perfil de Girard, um ex-técnico das selecções jovens francesas, portanto um homem apto a trabalhar jovens talentos e poder rentabilizar o investimento feito nos mesmos.

Logo na sua primeira época, apostou, da formação do clube, em alguns jogadores que se viriam a revelar fundamentais para o seu sucesso. Foram eles Yanga-Mbiwa, Stambouli, Cabella e Belhanda e ficou logo no 5º lugar. No ano seguinte voltou a manter a aposta na prata da casa, tendo terminado numa modesta 14ª posição. A confiança e o crédito manteve-se. O perfil estava encontrado e era uma questão de tempo, acreditavam todos.

Nesta época que agora findou, o clube francês, dos 18 jogadores mais utilizados ao longo do ano, que lhe valeu o seu primeiro título francês, 7 foram produtos da formação do clube, 7 foram recrutados fora (como Giroud), mas os dois mais caros, juntos, custaram 4 milhões de €, e mais 4 reforços a custo 0. A base estava montada, e em termos de contratações, o plantel custou 7 milhões de € nessa época.


O onze titular era quase sempre o mesmo, com uma base bastante bem definida. O guarda-redes Jourdren era da formação do clube. Bocaly aparece no futebol senior no Montpellier. Yanga-Mbiwa, da formação, era o esteio defensivo. O interior Stambouli era outro produto da formação. Belhanda, Saihi e Ait-Fana, outros três produtos da formação. E as cartas todas lançadas na contratação de um jogador às divisões secundárias: Olivier Giroud, que aqui falei dele quando ainda se encontrava no Tours, tendo sido transferido este ano para o Arsenal.

O Montpellier fez um percurso impressionante, mesclando um plantel com experiência, e uma base jovem, irreverente, ambiciosa e de muita qualidade, e construiu um grupo sem grandes nomes, mas muito rendimento e, acima de tudo, bastante aceitação dos papéis de cada um, construindo uma filosofia e identidade bem patentes num trabalho fantástico do técnico francês Girard.

Construir um grupo vencedor está muitas vezes, ou quase sempre, associado aquilo que são os valores de grupo, aceitação dos seus elementos, e ambição dos mesmos. O Montpellier exempleficou na perfeição o que significa a mentalidade de um clube, direccionada para a sua identidade, que lhe permitiu, com tempo de espera, com confiança e com uma boa gestão e rentabilização de activos, fazer a Europa render-se aos seus resultados.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Melgarejo a lateral


Melgarejo impressiona. Tornou-se evidente, pela época que fez no Paços, que se trata de um jogador com muito para dar ao futebol português. No Benfica, encontra algo totalmente novo. Modelo de jogo. Disposição dos adversários. Exigência competitiva. Jesus reconhece-lhe o talento e tornou-o numa das polémicas de pré-época deste Benfica ao estar a querer torná-lo lateral esquerdo. Melgarejo não é um jogador muito forte tecnicamente, a nível da recepção e da condução. Também em termos de drible não é nada de especial. Contudo, é fortíssimo na velocidade, especialmente de ponta. Acelera bem, mas é com metros para correr que faz essa diferença. 

E, como extremo, no Benfica, poucas seriam as vezes que teria esse espaço, poucas as vezes que não jogaria 1x2, com superioridade para o adversário, e que teria espaço, sobretudo, para poder correr pelo corredor. A adaptação de Jesus parece formidável se, e se, o paraguaio for inteligente e conseguir reter com brevidade as noções defensivas e posicionais que terá de aprender, pode rapidamente assumir-se como  lateral esquerdo titular do novo Benfica. Jesus pode até não conseguir. Mas se o fizer, Melgarejo tem talento que sobre para se assumir como um dos melhores do campeonato naquele lugar, e ambicionar outros voos.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Como jogou o Porto no Mónaco




Em pressão alta, com bloco subido e procurando recuperação de bola o mais rapidamente possível. Lembrando o que aqui escrevi sobre a forma como jogou o Real Madrid e em comparação...


"O Barça dava largura máxima, parecia quase uma equipa de futebol de 7 a sair desde o pontapé de baliza. Essas eram as duas únicas opções que o Real deixava livre, os 2 centrais. A partir daí, fechada todas as linhas. Não em basculação defensiva, mas sim subindo as várias linhas de pressão."


O Porto não. Procurava imediatamente subir os seus médios de forma a pressionar a saída de bola a partir do corredor central. Kléber saia ao central de um lado, quando havia variação, ou Guarín ou Moutinho pressionavam imediatamente tentando reduzir o tempo de decisão e procurando o erro. Boa estratégia e pensamento do treinador procurando que a bola fosse chegando consecutivamente em condições desfavoráveis aos médios do Barça. E também ao contrário do que fez o Real, o Porto defendeu em basculação defensiva, não jogando ao homem e anulando as opções através do homem, procurando através do espaço. Aqui o Barça sentiu-se mais à vontade pois o Porto procurou retirar profundidade, mas o Barça imprimiu largura, colando Dani Alves e Pedro em cima da linha lateral, obrigando o Porto e o seu bloco defensivo, caso os movimentos de equilíbrio não fossem suficientemente rápidos, a dar espaço para penetração através desse corredor.


"O Real procurou ganhar sempre a bola o mais à frente possível pois só assim conseguiria retirar metros e espaço para pensar ao Barça. O Barça é a melhor equipa do Mundo a jogar sob pressão. Mas sentiu muitas dificuldades. Erraram alguns passes (coisa rara) em transição e em organização. O Real recuperou muitas bolas dentro do meio-campo do Barça através da sua 2ª e 3ª linha de pressão."


O Porto não o conseguiu. Enquanto o Real procurou recuperar em todas as zonas do campo, dando menos ênfase ao corredor central em transição (defesas centrais), focando a sua área nos jogadores seguintes, da 2ª fase de construção, procurando então o desequilíbrio defensivo que o Barça poderia ter através da recuperação da 1ª zona de construção do Barça, o Porto tentou anular logo essa 1ª zona, pressionando os centrais, o que deixou a equipa mais exposta, menos junta, o que acabou também por dar mais espaço ao Barça para sair. Mesmo que o primeiro passe saia deficitário (o que aconteceu algumas vezes), a superior capacidade técnica e de movimentação de Dani Alves, Xavi, Iniesta, resolveriam os problemas.


"O difícil de tudo isto foi a forma como os jogadores se conseguiam manter próximos e com grande equilíbrio entre si. Raramente se desposicionaram. Quando recuperavam havia rapidamente junto a si várias opções de passe para sair rápido em ataque rápido."


O Porto também não o conseguiu. A linha defensiva esteve subida, mas a saída em pressão de um dos médios interiores, acompanhando o movimento do avançado, fez com que os extremos do Porto, o seu 6, e o outro interior, estivessem algo longe desses 2 primeiros elementos na saída de pressão. Foi uma zona desarticulada e sobretudo longíncua, o que fez com que sempre que houve recuperação de bola, em vez de passe de ruptura ou em apoio frontal, ou penetração, tenha existido quase sempre uma temporização, ou para trás, ou para o lado, o que fez com que o Barça rapidamente se posicionasse.

PS1: Não quero com este post dizer que o Porto deveria ter jogado como o Real, mas sim realçar que dentro do mesmo princípio, podem haver várias formas de o interpretar, através dos seus sub-princípios, e colocar em práctica a estratégia posicional dessa forma de jogar. A estratégia das equipas é sempre diferente, porque os jogadores são diferentes, as características diferentes, as necessidades diferentes, as armas e respostas diferentes, tudo isso diferente, mesmo defendendo as mesmas formas de jogar.

PS2: O Porto precisa de um avançado de topo, no imediato. Mesmo que Kléber venha a ser, daqui por 1 ou 2 anos, um grande avançado do nosso campeonato.

domingo, 21 de agosto de 2011

Onde estão e onde estarão...


Num país onde o talento nasce de dia para dia, o Brasil volta a ser campeão mundial de sub-20. Vamos para o plantel dos últimos vencedores pelo Brasil da segunda competição mais importante da FIFA.

2003:

Jefferson (Botafogo)
Dani Alves (Barcelona)
Alcides (Dnipro)
Adaílton (FC Sion)
Daniel Carvalho (Atlético Mineiro)
Dudu Cearense (Atlético Mineiro)
Adriano (Barcelona)
Juninho (Daegu depois de passagem pelo Nacional da Madeira)
Jardel (Caldense, passagem pelo Estrela e Penafiel)
Nilmar (Villarreal)
Kléber (Palmeiras)
Fernando (Ceará)
Andrey (Criciuma)
Coelho (Karabukspor)
Gabriel Santos (América Mineiro)
Renato Silva (Vasco)
Carlos Alberto (Góias)
Andrezinho (Internacional)
Fernandinho (Shakthar)
Dagoberto (São Paulo)

PS: Não se espantem os leitores que daqui por 8 anos, dos 28 jogadores que hoje disputaram a final do Mundial sub-20, apenas se lembre dos nomes de Mika, Danilo (Brasil), Philippe Coutinho, Óscar e Nelson Oliveira.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

A pressão alta em Camp Nou


Devia ser escrito um livro sobre a primeira parte do Barça-Real para a Supertaça Espanhola para entrar nos manuais de como defender alto, próximo, de forma sufocante, anulando opções do adversário, e saindo quase sempre em superioridade numérica para o contra-ataque! E a grande dificuldade está aqui.

Já ouvi muitos treinadores dizerem que jogar em pressão alta com o Barcelona é suicídio, porque eles conseguem arranjar facilmente soluções e se está a desproteger a zona defensiva e a dar espaço entre-linhas para os grandes criativos do Barça se superiorizarem.

Mourinho foi genial. O Barça dava largura máxima, parecia quase uma equipa de futebol de 7 a sair desde o pontapé de baliza. Essas eram as duas únicas opções que o Real deixava livre, os 2 centrais. A partir daí, fechada todas as linhas. Não em basculação defensiva, mas sim subindo as várias linhas de pressão. 1ª - Benzema e Ozil. Com o francês a sair sempre à zona da bola no primeiro passe e o alemão a tentar dificultar imediatamente na recepção do portador quando havia passe vertical, a procurar progressão. 2ª - Di Maria, Ronaldo, Khedira e Xabi Alonso com uma diferença: nos corredores laterais, procuraram antecipação, agressivos (Dí Maria nos primeiros minutos ganhou algumas bolas) Khedira e Alonso no corredor central mais em contenção, não deixando virar, procurando evitar que Xavi ou Iniesta tivessem tempo para pensar. 3ª, junto ao meio-campo, de igual forma. Sérgio Ramos e Coentrão agressivos e procurando antecipar. Carvalho e Pepe igual.

O Real procurou ganhar sempre a bola o mais à frente possível pois só assim conseguiria retirar metros e espaço para pensar ao Barça. O Barça é a melhor equipa do Mundo a jogar sob pressão. Mas sentiu muitas dificuldades. Erraram alguns passes (coisa rara) em transição e em organização. O Real recuperou muitas bolas dentro do meio-campo do Barça através da sua 2ª e 3ª linha de pressão.

O difícil de tudo isto foi a forma como os jogadores se conseguiam manter próximos e com grande equilíbrio entre si. Raramente se desposicionaram. Quando recuperavam havia rapidamente junto a si várias opções de passe para sair rápido em ataque rápido. E aqui o princípio de Mourinho preconizado em treino é muito difícil de se parar.

Mesmo em pressão e garantido o equilíbrio - o tal homem dos equilíbrios - (ler este post de Maio http://vidadofutebol.blogspot.com/2011/05/tera-mourinho-errado.html), o jogador próximo do centro de jogo era rapidamente solicitado aquando da recuperação de bola procurando ser ele a decidir o lançamento do ataque rápido desposicionando a cobertura ofensiva do Barça e explorando alguma má organização da última linha do Barça (o que acontece muito poucas vezes).

O Barcelona dando muita largura fez com que os seus jogadores estivessem algo afastados, e quando procuravam os apoios para progredir, aproximando-se, fossem rapidamente abafados pela zona de pressão do Real, procurando a antecipação.

Ainda hoje li um texto sobre a questão da pressão alta e este jogo no dia de hoje fez todo o sentido. Sem dúvida que o principal para se efectuar é haver uma boa ocupação do espaço e proximidade entre sectores e linhas. É o mais importante pois permite a cada jogador correr menos, mas de forma mais eficiente. Contudo nesta altura da época, a dimensão física é fundamental, e estar em grande ritmo na fase defensiva e ofensiva do jogo, torna-se papel extremamente difícil. O tempo que o Real aguentou fazê-lo, foi a melhor equipa a jogar contra este Barcelona que me lembro de ter visto jogar.

PS: Claro que numa equipa onde pontificam jogadores como Messi, Iniesta e Xavi, por muito que se jogue bem, por muito que se cresça tacticamente, por muito bons que também se seja, é quase missão extra-terrestre superiorizar-se a eles.

PS2: O Real precisa urgentemente de um avançado de classe Mundial. Hoje tinha feito golos em Camp Nou e a Taça era de Mourinho.

PS3: Estou farto de ver Busquets e Dani Alves constantemente no chão a pedir faltas e cartões. De ver Messi a chutar bolas para longe e a enervar os adversários. E de ver o Barça a vitimizar-se.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

O erro na posição 6 de Jesus


Em transição defensiva. E vão 3 anos que a equipa sofre golos, ou se desequilibra, sempre da mesma forma. E quem estuda bem o Benfica de Jesus, torna-se fácil explorar uma das poucas debilidades notórias que tem dentro do seu modelo de jogo. Continuo a defender que o erro é seu, porque apesar da forma como estuda e entende a fase defensiva, no momento da transição defensiva, o princípio que escolhe, apesar de ser acertado, é muito difícil de colocar em prática.

Fruto do envolvimento ofensivo dos laterais, em transição defensiva, Javi equilibra a linha de 4 na zona em que falta um jogador (normalmente o defesa lateral). É difícil equilibrar rápido e sair da mesma forma ao portador da bola conseguindo fechar rápido o corredor central e garantir proximidade e cobertura defensiva correcta. Jesus consegue-o. Continua sem o conseguir é equilibrar a zona 6, de onde saiu Javi. Normalmente porque a velocidade do contra-ataque é elevada. Javi não é propriamente veloz. E demora eternidades alguém a equilibrar a zona 6. E o golo do Twente hoje acontece novamente fruto disso (lentidão de Javi, ou alguém, a fechar o espaço 6 próximo dos centrais).


szólj hozzá: Twente 1-0 Benfica

É pena não dar para ver no vídeo o momento anterior em que o Benfica tentava o ataque rápido. Com um passe vertical o Twente consegue ultrapassar as 2 primeiras linhas de pressão do Benfica. Em apoio frontal os holandeses conseguem situação de 3x4. Impensável. Maxi aberto permitiu espaço. E Javi foi muito lento a recuperar e estar próximo dos centrais (movimento fundamental em organização defensiva). E a linha de 4 defensiva nem estava com muitos metros atrás de si. Demoraram os 4 jogadores a fechar o corredor central. Errou no posicionamento Javi que permite que o jogador do Twente receba de frente para os 2 centrais, no corredor central. E erra também Luisão que abre espaço interior para a penetração ou o remate como se viu. Tentando remediar o erro primário de Maxi, não pode nunca descurar a proximidade do outro central, no caso Garay. E Luisão fê-lo.

Desconcentração e erro básico que a outro nível ditaria certamente muitas dificuldades do Benfica frente a um adversário frágil como os holandeses desta noite.